Mostrar mensagens com a etiqueta Angeja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Angeja. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de julho de 2019

Maria Helena Matos - de Angeja para Moçambique ...

Maria Helena Matos e o marido António Matos Ferreira

Maria Helena Matos nasceu em Angeja, a 22 de Dezembro de 1935. Aos 17 anos vai com a família para Moçambique. Esteve no Chibuto, depois Lourenço Marques onde conhece os pais de Maria Rueff. Estes vivem na Beira e tempos depois querendo trabalhar, decide afastar-se da família e ruma à Beira. Fica em casa dos pais de Maria Rueff e cuida dos irmãos dela. Depois consegue fazer uns programas para a Rádio PAX para a locução de Eugénio Corte Real.

Na casa dos Rueff vem a conhecer António de Matos Ferreira, nascido em Cantanhede a 16 de Abril de 1942, que vai fazer o serviço militar a Moçambique, na Força Aérea, e que começa a fazer um programa na Rádio PAX, "Alvorada Musical". Quatro anos depois vão para Lourenço Marques. Em 1965 montam a Agência de Publicidade Arco-Íris, que começa com uma campanha publicitária para a Gazcidla.


Iniciam programas no RCM (Rádio Clube de Moçambique) como o "Paralelo 26", "Tempo de Juventude" e "Parada de Malucos", em que o radialista Luís Arriaga também faz locução. Vão lançar vários discos novidades como "Amor Novo" de Luís Rego. Têm concursos de quadras à cidade em que dois dos mais ferozes concorrentes são Maria José Arriaga e João Gouveia que disputam normalmente os primeiros lugares. Têm também a "Caravela da Saudade", programa que inclui pedidos e mensagens das tropas.

Tornam-se empresários, contratam artistas Sul Africanos para vir cantar a Lourenço Marques, como o caso de Cornelia e Gene Rockwell, no cinema S.Miguel. A Banda Diplomática preenche a 1ª parte e os uniformes são patrocinados por eles. Helena é muito dinâmica e não para quieta. Tem a ambição de querer fazer mais e melhor e promover o meio musical moçambicano.

O logotipo da LM discos no canto superior esquerdo

Em 1971 decidem avançar com uma editora discográfica, fazem contratos com a Movieplay e outras editoras para serem suas distribuidoras, lançam o sêlo (etiqueta)  LM discos, cujo logótipo é desenhado por João Pedro Gouveia. Dos discos lançados contam-se um excelente álbum dos Osibisa, os EPs da Pandilha e muitos outros artistas.

Dos locais, o 1º single de Amélia Muge, com o tema "Natal", um lindíssimo e excelente trabalho, da autoria de Reinaldo Pereira e Raul Baza, um single de Zito e o lançamento de novos grupos como os Adagio Vocal, que tiveram bastante sucesso com "Mamana Joana", e Zé Luís e Midda com "Sargaceiro". No fado também lançaram Carlos Macedo, Américo Fernandes e Alves Salgado.



Além da Etiqueta LM (de Lena Matos ou Lourenço Marques, como era mais conhecida) tinham ainda o sêlo Afro Som. Os rótulos dos primeiros discos tiveram de ser colados à mão devido a dificuldades de prensagem iniciai. Depois tiveram que ir prensar os discos à África do Sul por causa dos impostos exagerados que eram cobrados aos discos. Uma edição tinha normalmente 500 exemplares. Muitas capas foram desenhadas por António Matos, como os discos de Amélia Muge e dos Adágio.

Após o 25 de Abril as dificuldades de negócio multiplicam-se e acabam por ter que vir para Portugal sem que as dezenas de empresas que lhes deviam lhes pagasse e sem conseguirem trazer nada. Ficou um armazém com mais de 20 mil discos de mais de duas centenas de artistas.

O casal, ainda em Moçambique, com uma das filhas

"Em Portugal passámos as passas do Algarve, bastantes dificuldades nunca desistindo" diz Lena. "Como por aqui as coisas não melhoravam, consegui convencer o meu marido a irmos para a Suíça" continua Lena, "estivemos por lá 22 anos, ainda trabalhei na casa de um milionário como Governanta durante 4 anos, mas o António também trabalhava nas fábricas dele e foi subindo até ter posições de chefia. Tinha que viajar muito. Deixei de trabalhar e acompanhava-o".

"Depois viemos para Coimbra onde tinha uma casa. Vendi-a e comprei aqui na Lousã. Na Suíça o António começou a dedicar-se muito a sério à pintura e chegou a fazer exposições em vários Países como a França, Espanha e Alemanha. (...) [E, hoje em dia,] tem feitos muitas exposições desde Cascais ao Norte mas especialmente aqui na zona de Coimbra".

Fonte: Onda pop (João Pedro Gouveia) (adaptado)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

António Manuel Figueira Souto (1910-2011)


Antônio Manoel Figueira Souto nasceu em Angeja em 1910. Emigrou para o Recife aos 13 anos com muitos sonhos e em 1948 mudou-se para São José dos Campos, quando o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) aí se estava instalando.

Foi o responsável por grande parte da desapropriação de suas terras, assim como obrigatoriedade de doação de outras tantas! Participou da discussão da Dutra e da Av dos Astronautas - antiga Brejauveira.

Ganhou o título merecido de cidadão Taboense [Taboão] e Joseense [São José dos Campos].

Dentre tantos reconhecimentos, seu empreendedorismo fez com que aos 98 anos tivesse concretizado o seu sonho final - ter no local onde criou suas 6 filhas, junto com sua esposa Leonor de Almeida Ribeiro Souto, um edifício, onde inúmeras famílias pudessem morar, e viver a vida como ele viveu, com fé, luta e alegria. Em dezembro de 2014 seu sonho se tornou realidade com a inauguração do Edifício Jd Souto, no bairro Jardim Souto.

Leonor de Almeida Ribeiro Souto

Leonor de Almeida Ribeiro nasceu em São Gabriel da Cachoeira, que na época pertencia à região do Amazonas. Aos 4 anos seu pai Armênio Ribeiro, de Angeja, a levou para sua terra, onde foi criada e se casou com Antônio Manoel Figueira Souto ... e vieram para o Brasil definitivamente em 1939.

Avenida Leonor de Almeida Ribeiro Souto


O contributo de Leonor de Almeida Ribeiro Souto e António Manuel Figueira Souto para a história de São José dos Campos foi reconhecido pela atribuição do nome da esposa à Avenida Leonor de Almeida Ribeiro Souto.

Quando mudaram para São José dos Campos a cidade tinha 20.000 habitantes e hoje tem 700.000 habitantes.

Em 26 de dezembro de 1958 foi oficializada a doação de um terreno com a área de 45.730,00 m2 no Município de são José dos Campos, Estado de São Paulo, que se destinava ao Centro Técnico Aeroespacial.

Os Souto fundaram o Bairro Jardim Souto, um dos poucos loteamentos feitos com infraestrutura completa custeada pelos loteadores, o que fez toda a diferença num país como o Brasil.

Foto com história


A tradicional "Feira dos 26" de Angeja foi relançada em 2014 e na versão de 2015 foi utilizada uma foto em que podemos ver Leonor de Almeida Ribeiro aos 18 anos, de sobretudo preto, quando António Manuel Figueira Souto a conheceu e se apaixonou.

"Pacto Existencial - Uma lição de amor, liderança e espiritualidade" de Cristina Souto Rigotti (2010)


Através da vida de um imigrante português, a autora retrata momentos de luta, persistência, superação, liderança inata, e acima de tudo, a fé em Deus.

Mostra a história de um Brasil na Segunda Guerra Mundial, que talvez muitos não atentaram quando jovens, retratando um cenário de preconceito, de disputa, de autoritarismo, ainda tão comum entre nossos governantes.

Nesta envolvente história real, a autora faz uma relação com os conceitos de liderança situacional ao lidar com pessoas, de coaching com suas metas bem claras, da paixão pelo trabalho que faz a diferença na busca de resultados de alta performance, das aprendizagens ao dizer adeus às conquistas, do espírito empreendedor e pleno da amizade e finalmente a espiritualidade inerente aos seres humanos, filhos do Criador. (...)

Enfim, este livro é uma homenagem a cada pessoa desbravadora da própria vida, que planeja, foca e ousa transformar o mundo à sua volta. É uma homenagem a seu pai de 100 anos, que vive a vida na sua mais completa plenitude e que nunca permitiu que existisse o não em sua vida de empreendedor. E a morte? Para ele, é desaparecer da terra, nada mais, ou algo a mais! (...)

Fontes: Cristina Souto Rigotti (filha) / Scortecci 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

100 anos da Monarquia do Norte (1919-2019) - Lembranças duma Campanha do Vouga

Oficiais do batalhão comandado pelo Autor deste texto (Belisário Pimenta)

Nos dias tristes e pesados deste último inverno (...) muitas vezes me surgia à memória um outro inverno mau em que sucessos graves da nossa vida política me levaram a suportar as suas inclemências. (...) as evocações iam para o Vouga (...) junto do qual exerci, modestamente e ignoradamente, funções militares em ocasião bem desagradável para a nossa história contemporânea. (...)

(...) o Caima, perpendicularmente, forma uma linha de defesa da crista que sobe de Albergaria para o norte e intercepta a estrada de Viseu a leste desta última vila. (...) embora o atravessem com mais pontes, parece ser a linha natural de separação entre as regiões que constituem as zonas de influência do objectivo principal Coimbra-Lisboa e do objectivo menor que é o Porto.

Por tudo isto, os primeiros actos foram o que foram: do norte, a intenção de chegar depressa ao Vouga; do sul, a resolução rápida de manter, dentro do possível mas custasse o que custasse, as passagens do rio.

Aspecto da Região do Vouga
Foi, de começo, uma defesa simples, quase elementar; a surpresa dos sucessos do Porto, dias antes, não dera tempo a preparação de resposta eficaz. E foi em Esgueira, no cruzamento das duas estradas que correm para o Vouga, que me estabeleci e assumi o comando das poucas forças de que, no momento, se dispunha.

Eram elas: uma companhia de Infantaria 24, saída do quartel de Aveiro que vigiava e defendia a estrada para Eixo; outra, constituída pelo pessoal do 3.º batalhão daquele regimento (o de Ovar) postou-se na de Angeja; e a de Infantaria 23 que tinha ido comigo, ficou como reserva em Esgueira; a bateria incompleta de artilharia, instalou-se num pinhal adiante desta povoação para bater as pontes a norte de Cacia.

Assim se passaram dois dias, em vigilância aturada, em pesquisa dos movimentos contrários e na expectativa desagradável de qualquer surpresa que se não pudesse evitar − até que, em 24 de Janeiro, ao mesmo tempo que se sabia que as forças contrárias se aproximavam de Albergaria e de Salreu, em colunas separadas, começaram a chegar reforços e, por consequência, a intensificar-se a defesa que tão precária era.

Casa de São João Loure que serviu de quartel general dos republicanos

Uma destas forças chegadas foi para a margem direita do Vouga com missão de vigiar e inquietar a coluna monárquica que vinha na direcção de Albergaria; e outra força que possuía duas metralhadoras ligeiras, foi defender a ponte de São João de Loure.

As que já estavam, isto é, as duas companhias de infantaria 24 que eu comandava, foram para Cacia, uma para o apeadeiro e ponte do caminho de ferro; a outra para a estrada e ponte de Angeja; ambas com missão de defender estas passagens do rio e de manter vigilância contínua na margem esquerda desde o esteiro até Tabueira onde começava a vigilância da força da ponte de Loure. (...)

Em 26, já instalado, desde manhã, em Cacia, numa casa de pescadores ao cimo do lugar, tive conhecimento de que alguma cavalaria das forças revoltadas entrara em Angeja e uma companhia de 200 homens de infantaria estava a caminho desta vila; e na manhã seguinte, em que caiu pesado nevoeiro sobre o vale, sentiu-se na outra margem rodar uma coluna de artilharia. (...)

Oficiais que participaram nas operações do Vale do Vouga (IP)

Quase a seguir, surgiram as primeiras forças de infantaria do outro lado da ponte de madeira com intenção aparente de a transporem − mas o fogo da companhia que a guardava não deixou continuar o avanço e forçou aquelas a abrigarem-se convenientemente.

Começou, então, o tiroteio, que foi constante durante o dia entre as duas infantarias dum e outro lado da ponte, com mais intensidade de lá do que de cá, onde havia ordem de economizar munições; a artilharia contrária fez cerca de 40 tiros, espaçados, sem resultado além de uma ou outra árvore derrancada nos altos de Cacia. (...)

No dia seguinte, 28, a situação manteve-se quase na mesma; o fogo começou muito cedo, ainda de noite, com intensidade por vezes; a divisão de artilharia adversa que se via bem, no alto de Angeja, fez cerca de 30 tiros, vagarosos, mas mais certeiros do que na véspera: um deu na estrada, a 50 metros aquém da ponte de madeira; outro no encontro da ponte do caminho de ferro que ficou levemente danificada  (...)

Ponte de Angeja de madeira

A cheia do Vouga crescia a olhos vistos; os barcos (que, previdentemente, se tinham recolhido quase todos à margem esquerda, dias antes) teriam difícil manobra por a corrente ser impetuosa; a ponte de madeira era alvo bem visível e de fácil referência; e as tropas contrárias continuavam postadas na margem oposta, a pequena distância, e mais ou menos abrigadas.

Qualquer movimento feito de cá, teria que ser, pois, a descoberto − e por muito ardil que se empregasse sê-lo-ia com êxito?

O problema não era, por consequência, somente de ordem militar. E a chuva continuava, miúda, densa, com aspecto, por vezes, de nevoeiro cerrado; nada se via para pouco mais além da outra margem − e o ataque que se começou, nas alturas de Frossos, e de que se ouvia o tiroteio, continuava indeciso.
Alto de Angeja onde estiveram instalados os revoltosos

Mandei, contudo, tentar o conserto da ponte de madeira; mas mal o trabalho começou, veio uma granada rebentar sobre o ajuntamento com razoável pontaria. (...)

(...) fizeram-se dois reconhecimentos: um, constituído por pequenas forças de infantaria e de marinheiros, seguiu oculto pela linha férrea e, através dos esteiros, chegou às portas de Angeja; outro, formado por pequena patrulha de infantaria, atravessou o rio em barco, escondido pela ponte de madeira e conseguiu furtar-se às vistas das forças da margem direita até quase ao fim do chamado túnel de Angeja (...)

O combate, na margem direita, manteve-se indeciso, não conseguiu o objectivo determinado; a noite caía e o comandante do destacamento, conforme novo plano, mandou seguir para Loure uma das companhias (a que estava no apeadeiro de Cacia) e deu-me nova missão que eu fui receber na noite de 29 para 30, ao Quartel do comando em Loure, enquanto nas ruas e estradas caíam as maiores bátegas de água que é dado ouvir nestes climas considerados amenos.

Margem direita do Vouga - Pateira de Frossos

Recebi, nessa noite de 29 para 30 de Janeiro, a missão de, no dia seguinte, ainda com o lusco-fusco, fazer aparecer a leste de Frossos, na altura da estrada Loure-Albergaria, três companhias de infantaria: uma do regimento n.º 5, outra, mista, dos regimentos 28 e 35; e outra (que mantive em reserva) do regimento 24 que viera, de noite, de Cacia.

O aparecimento destas forças, ao romper da manhã, conjugado com o ataque de frente, feito pelas forças que, à minha esquerda, deveriam seguir na direcção sul-norte, ao longo da estrada S. João de Loure-Angeja, tinha o objectivo de simular o corte de comunicações com as forças monárquicas que operavam pelas alturas de Albergaria e o possível flanqueamento das posições de Angeja. (...)

À direita, para os lados de Albergaria, o outro destacamento ocupou novas posições à frente e avançava com segurança. O êxito do movimento acentuava-se e as deslocações iam-se fazendo − quando recebi ordem para retirar e reunir as minhas forças na povoação do Eirol, na margem esquerda do Vouga. (...)

Ponte da Rata, Eirol (concelho de Aveiro)

Desci a S. João de Loure, atravessei a ponte, cortei à esquerda pela E. N. n.º 45 e subi pela calçada estreita e em curvas para essa pitoresca povoação do Eirol, assente em terras altas que dominam o vale e a passagem sobre o Águeda que eu ia encarregado de defender. (...)

No dia seguinte, já os campos se alegravam com o sol quase às soltas no céu com poucas nuvens, recebi a comunicação de que a nossa cavalaria, ao explorar a margem direita, na direcção de Angeja, verificara a saída das tropas contrárias desta vila e a sua marcha normal para o norte, na direcção de Estarreja.

Estávamos, pois, de novo, senhores da margem direita; e na tarde desse dia 31 entrei com o meu batalhão em Angeja e tomei as posições de apoio a outro batalhão já nessa altura em postos avançados na linha Fermelã-Sobreiro (...)


Durante os nove dias que se seguiram, o batalhão fez o serviço de postos avançados, de apoio ou de reserva, consoante a escala, na região ao norte de Angeja; lançou reconhecimentos pelos quais se concluía que os adversários tinham muito pouca gente na povoação de Salreu e só em Estarreja tinham maior número.

Nestes nove dias, o comando superior das forças em operações esteve a organizar melhor os dois destacamentos que operavam ao longo das estradas Aveiro-Ovar e Águeda-Oliveira de Azeméis − e por isso se chamavam vulgarmente os destacamentos de Aveiro e de Albergaria.

Era já o caminho (como teria dito o ilustre comandante Rocha e Cunha) para o estado positivo.

Em 9 de Fevereiro, à noite, planeou-se o ataque a Salreu como base para atacar Estarreja que se julgava ser (como, de facto, foi) o último reduto da resistência adversa.

Exposição sobre "Monarquia do Norte" em Estarreja
O plano era simples: o 1.º batalhão do destacamento seguiria pela estrada Angeja-Estarreja; eu, apoiando a minha-esquerda na direita desta unidade, seguiria pela estrada Angeja-Albergaria até ao Sobreiro onde transporia a linha dos postos avançados para realizar a marcha na direcção norte, com o fim de ocupar a linha determinada pelos lugares de Soutelo-Campinos de Salreu e obrigação de estabelecer ligação constante à direita com o destacamento n.º 2 (Albergaria).

Realmente, na manhã de 10, nevoenta, com prenúncios de chuva, começou-se a marcha, algum tanto demorada por deficiências técnicas da sua preparação (...) pela tarde, cerca das 15 horas e meia, depois de várias peripécias sem importância para o conjunto, conseguiu-se alcançar o objectivo, e, até, na direita, ultrapassá-lo um pouco, por engano, nas alturas da povoação do Soutelo. (...)

A vila de Estarreja era, naquela zona, o último reduto da resistência; as forças adversas retiraram para o norte e a acção perdeu todo o interesse, porque a retirada era patente e a reviravolta no Porto, em 13 de Fevereiro, veio rematar a contenda. A 16 do mesmo mês, as forças reunidas entraram no Porto entre aclamações e músicas.

Fonte: Extractos de Artigo de Belisário Pimenta (1936) (em site "Arquivo do Distrito de Aveiro")

sábado, 19 de janeiro de 2019

100 anos da Monarquia do Norte (1919-2019)


A Monarquia do Norte foi uma contra-revolução ocorrida na cidade do Porto, em 19 de Janeiro de 1919, pelas juntas militares favoráveis à restauração da monarquia em Portugal em plena 1ª Republica portuguesa. Durante este breve período, também apelidado de "Monarquia do Quarteirão" por só ter durado 25 dias (de 19 de Janeiro a 13 de Fevereiro), foi instalado um governo provisório no Porto, encabeçado pelo militar exilado Paiva Couceiro.

A Monarquia do Norte ficou também conhecida como “Reino da Traulitânia” ou “Guerra dos Trauliteiros”, forma como eram apelidadas as milícias monárquicas, pela facção republicana.

A Coluna Militar Mista do Sul, comandada pelo tenente-coronel de Artilharia João Carlos da Cunha Corte-Real Machado partiu do Porto a 22 de Janeiro e proclamou a Monarquia em Ovar (23 de Janeiro), Estarreja e Albergaria-a-Velha (24 de Janeiro), sendo travada às portas de Águeda, exaurida de reforços, munições, calçado e pitança.(…)


Vitoriosos em Lisboa, os republicanos e o Governo da República apertaram o cerco, mobilizando voluntários civis e colunas militares comandadas pelos generais Abel Hipólito e Alberto Mimoso da Costa Ilharco em marcha forçada com destino ao Norte do País. Depois de fugazes escaramuças e recontros, em especial em Águeda e em Angeja, a breve Guerra Civil iria terminar com a derrota da hoste monárquica, com numerosos actos de valentia de parte a parte.


 No rio Vouga situou-se a zona de fronteira entre monárquicos e republicanos, ficando Estarreja ocupada por tropas partidárias da monarquia de 24 de Janeiro a 11 de Fevereiro. Durante parte desse período esteve sediado em Estarreja um centro regional de operações militares e um quartel general, mantendo-se cortadas as ligações com o sul, nomeadamente Aveiro.


Os republicanos reocuparam Estarreja (11 de Fevereiro) e Oliveira de Azeméis e Ovar (12 de Fevereiro), e os combates prosseguiam ainda na Ponte de Entre-os-Rios e Paços de Ferreira. Apesar dos últimos esforços na frente de batalha em Lamego e no Vouga de Paiva Couceiro, esforçado paladino dos seus ideais, com tão parcos meios e sem bocado de pão para trincar pela soldadesca, a defesa da Monarquia e do Porto era caso de extrema complexidade, percebeu de salto que a causa estava perdida. A manta era curta, destapava os pés quando cobria a cabeça.

No norte, no Porto, a revolta só terminou a 13 de Fevereiro. Neste dia, após combates em todo o litoral centro, nomeadamente em Angeja, a guerra civil termina com a entrada dos exércitos republicanos no Porto.

Fontes: Jofre de Lima Monteiro Alves / wikipedia  / Imagens: Revista Ilustração Portuguesa / Gbliss 


Entrevista a Couceiro Costa, Ministro da Justiça do Governo Republicano

O moral das tropas é o mais animador que pode ser. É elevado e a vontade de todos é marchar, marchar sobre os insurrectos. Dificilmente são contidos na sua ânsia de castigar os aventureiros do Norte [...]

Visitei todos os quartéis-generais e postos avançados. Enfim, toda a frente desde Angeja até ao Caima. A zona de operações está dividida em dois sectores, a saber: Angeja e Albergaria-a-Velha [...]

Hoje, a República, que simboliza a Pátria, está arreigada no espírito do povo a tal ponto que dentro em breve, talvez até mais breve do que julga, todo o território da República estará livre dos aventureiros monárquicos.

Fonte: Jornal "A Capital" (12-01-1919)(1)


Trauliteiros em Angeja

Na madrugada de domingo, dia 30 de Janeiro, as tropas avançadas dos monárquicos entram na vila, segundo relatos da época, arrancando das esquinas das ruas, todas as placas de toponímia com denominações republicanas que iam encontrando. Concentram-se na Praça da Republica, de onde partem para tomar várias posições estratégicas. Alguns edifícios particulares são ocupados.

Muito embora não existam registos, diz-se que na hoje denominada Casa do Alambique esteve o próprio Paiva Couceiro, aquando da sua visita a esta zona.

A zona (Marridas) onde se realizará este evento, foi a zona onde se posicionaram algumas das Forças Republicanas e de onde foram feitos alguns ataques às forças inimigas, que tinham entrado na Vila.

Na Afeiteira outro dos limites da freguesia foram travados duros e violentos combates, ali os monárquicos sofrem algumas baixas, entre elas, o Major Taborda que tinha familiares nesta região, uma espada e um revólver que se julga ter pertencido a um oficial, foram ali recolhidos após o combate por um popular, encontrando-se hoje perfeitamente preservados.

Fonte: Geocaching "Trauliteiros em Angeja"


Pessoas ligadas a Albergaria-a-Velha

O Dr. Francisco António de Miranda (1863-1934) foi um dos mais destacados aderentes da "Monarquia do Norte" no nosso Concelho, tendo inclusive sido nomeado Administrador do Concelho neste período.

O Major Taborda (Antero Eduardo Taborda de Azevedo e Costa), natural de Penamacor e casado com uma albergariense, a D. Aida de Sousa e Melo, integrou a expedição monárquica de Janeiro de 1919 denominada “Monarquia do Norte”, tendo sido assassinado a tiro no dia 29 de Janeiro de 1919, em Angeja, por ferimentos recebidos em combate, quando comandava uma coluna militar.

Fontes: ""Gente Ilustre em Albergaria-a-Velha" de António Homem de Albuquerque Pinho / "Albergaria-a-Velha 1910-da Monarquia à República" de Delfim Bismarck Ferreira e Rafael Vigário (adaptado)
  
 

sábado, 15 de setembro de 2018

Lavadeiras de Angeja


Foto utilizada no cartaz da Festa Anual de 2016 do Grupo Folclórico "As Lavandeiras do Vouga"


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Obras de Manuel Henrique Pinto (1853-1912) sobre Angeja e o Rio Vouga

Manuel Henrique Pinto e José Malhoa são dois pintores do primeiro naturalismo português, um menos conhecido e outro mais conhecido, os quais desenvolveram uma estreita amizade e companheirismo, que se manifesta nas suas obras.

Conheceram-se na Academia de Belas-Artes de Lisboa, tendo ambos pertencido e exposto na Sociedade Promotora de Belas-Artes, com o “Grupo do Leão”, no Grémio Artístico, na Sociedade Nacional de Belas-Artes e em diversos certames internacionais. 

Quadro de Columbano Bordalo Pinheiro retratando o Grupo do Leão

Durante o ano de 1883 viajaram entre Aveiro e Figueiró dos Vinhos (a convite do escultor Simões de Almeida) onde pintaram diversos quadros a óleo.

"Henrique Pinto e Malhoa terão ido juntos até Figueiró no tal Verão de 1883, no seguimento de uma longa jornada pelo Vale do Vouga, possivelmente já no regresso a Lisboa, e sabemos que a convite ou por indicação de José Simões d’Almeida Júnior, antigo professor de ambos"

"Esta ligação entre os dois pintores, irá perdurar até ao fim da vida de Pinto, trabalhando frequentemente em conjunto, com uma afinidade e proximidade de temas e imagens, demasiado evidente para ser ignorada."

Obras de José Malhoa

34 - “O Vouga em Angeja”, 36 - “O Cojo em Aveiro”,  41 - “No Cojo (Aveiro)", 47 - "Margens do Vouga" e 48 - “O Vouga próximo a Angeja” são alguns desses quadros.

"O Vouga em Angeja" de José Malhoa
Mais informações sobre "O Vouga em Angeja" de José Malhoa.

Obras de Manuel Henrique Pinto

Os Catálogos das Exposições de Arte Moderna do Grupo do Leão incluem reproduções (em fac-simile) de dois quadros de Manuel Henrique Pinto:

61 - "Margens do Vouga" e 62 - “O Vouga próximo a Angeja”



Fontes/Mais informações: Catálogos Ilustrados das Exposições de Arte Moderna do Grupo Leão / Blog "Lisboa e o Tejo" / Página do Facebook sobre Manuel Henrique Pinto / Nuno Saldanha  (Livro "José Malhoa - Tradição e Modernidade" e Tese) / Aires B. Henriques (1-Blog "O Ribeiro de Pera") (2 - O Figueiroense) / Luís Borges da Gama (neto de M.H. Pinto) / wikipedia / Conferência Profª Dra Sandra Leandro / "Dei o teu nome às estrelas" (livro de Rui Conceição Silva sobre a chegada dos pintores a Figueiró dos Vinhos) / Provocando uma teima / Tese de António Trinidad Munoz / Flickr

Imagem de "O Vouga em Angeja" gentilmente cedida por Manuel de Bragança (editora Scribe)


Obras de José Malhoa
Obras de Manuel Henrique Pinto

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Memórias da Feira dos 26 de Angeja


Angeja "tem feira a vinte e seis do mês, cada anno, dura meyo dia” (Memórias Paroquiais de 1758)

Realiza-se no Largo Marquês de Angeja (conhecido por Largo da Feira), onde existe um crucifixo e um chafariz com bebedoiro para animais. Feira aberta, mas paga Imposto de terreiro.

Transacciona-se gado vacum e porcino, e algumas vezes lanígero. Gado de cornos, segundo nos informaram, entraram hoje na feira 300 cabeças; porcos 150; de lanígeros, nesta feira, não se deu conta.
Curiosidade: A pessoa de sobretudo preto é D. Leonor Ribeiro aos 18 anos, quando Sr. Manoel Souto (emigrado no Brasil)  a conheceu e se apaixonou (*)

O gado é trazido à soga [corda], pelos produtores-lavradores de Fermelã, Cacia, Frossos, etc„ e, naturalmente, de Angeja. Os compradores são lavradores da região e os negociantes (marchantes e talhantes) vêm de Cantanhede, Paredes, Penafiel, Avanca, Estarreja, Figueira da Foz, etc. (em número de 30), e transportam o gado em camionetes.


Ainda se usa o alborque - "regar” com uns copos (geralmente vinho branco) o negócio feito, despesa paga pelo vendedor, em honra do comprador e dos que o ajudaram a rematar o negócio (os negociantes por vezes fazem cambão [combinam preços]). Há para o efeito uma taberna no local, aberta nos dias de feira.


Pare além de negócio de gado, indubitavelmente o mas vultoso em notas, há uma variedade infinita de artigos à venda:

* utensílios da lavoura, máquinas de sulfatar, moto-serras, semeadores de batata e de milho, arrendadores, etc.; correame [correias] para o gado, como piaçás, brochas (correia que liga a canga ao pescoço da vaca), tamoeiros [peças para carros de bois], passadeiras, etc.;
* utensílios de cozinha, desde garfos, facas e colheres, aos alguidares, tachos e panelas; artigos em folha zincada e de flandres; funis, regadores, púcaros, almudes (de 20 litros), lampiões, candeias de curral, etc., etc.;
* em vestuário o calçado, é um louvar-a-Deus de tendas, de barracas, de carrinhas, carros e carretas;
* cofinhos para o gado (antigamente de baracinha [cordel], agora do arame);
* peneiras, tamancos, pipos, pipas e dornas, melões e maçãs, enxadas, ferros de engomar à brasa, foicinhas, martelos, fogareiros, louças, pão do Fontão (muito saboroso) e tremoços (bem apaladados), regueifas, plásticos (ui, Jesus, o que vai pr'aí de plásticos), objectos de barro (caçoilas e púcaros, tarros e tarrelos), cordas de plástico e adibais [cordas compridas] de sisal, esteiras (em desuso, a malta agora quer é edredons e alcatifas!), aventais (os de serguilha tiveram a sua época!), blusas, casacos e bonés, galrichos, cestos de vime — o fim do mundo!

E pó! E música (altíssimo-falantes)! E propagandistas da banha-de-cobra! Vá lá, já não se vê os estropiados que andavam mendigando de feira em feira … hoje tudo fuma cigarro feito e de filtro!

No dia da feira o negócio local anima-se. Esta feira é o melhor ex-libris de Angeja.



Fonte: Bartolomeu Conde em Jornal "O Aveiro" (em "Novos Arruamentos")

(*) Imagem utilizada no cartaz da feira de 2015 (mais informações: Cristina Souto Rigotti)

A organização da feira foi retomada em 2014, tendo agora periodicidade anual



sexta-feira, 10 de março de 2017

As memórias do Fontão de Augusto Castro em "Religião do Sol" (1900) e Prefácio de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937)


Os primeiros anos da vida de Augusto de Castro (1883-1971) foram repartidos pelo Porto e pela Quinta do Fontão, em Angeja. Seria ao Vouga e aos seus “fundos de paisagem polvilhados a oiro”, que a sua infância e juventude ficariam indelevelmente ligadas, como o próprio reconheceria, algumas décadas mais tarde:

“Todo o homem é, espiritualmente, filho da paisagem que iluminou a sua infância. A nossa alma é moldada na terra. Nascido no Porto, tripeiro de origem, foi nas terras do Vouga que passei, posso dizer, a minha infância. De lá, espiritualmente, parti. Quando meus Pais vinham passar as férias do Natal, da Páscoa ou as férias grandes ao Fontão, a pouco mais de três quilómetros de Angeja, começava para mim a grande evasão rústica da aldeia que foi a primeira e a melhor escola do meu espírito. Se, mais tarde, a vida me separou dessas primeiras afeições, nunca na realidade, as esqueci”.


As longas temporadas no Fontão foram descritas em “Religião do Sol”, obra redigida por Augusto de Castro enquanto estudante da Universidade de Coimbra. Nela descreve com minúcia não só as paisagens do Fontão e de Angeja, a quinta, o pessoal de serviço doméstico e os vizinhos, mas também as desfolhadas, as romarias e outras festividades locais. Prova desta pormenorizada narrativa é a sua visão do Fontão:

“A minha fresca aldeia escorrega toda por um carreiro íngreme e pedregoso, num vale que defronta um montado de verdes sombrios, de pinheiros esguios como cadafalsos e folhagens sinistras como almas de corvos. As casas todas se anicham, numa grande pacificação de conforto, brancas, enviuvando há séculos do dono, metendo vento pelas frestas, mas todas elas de peitos amplos, com músculos retesados e vigorosos”.


Se, do pessoal que prestava serviço doméstico na casa, lembra “a boa Ana, limpa, fresca, nas rugas dos seus sessenta anos”, que todas as manhãs o acordava e lhe estendia “os calções de malha, a camisa de folhos e as botas abonecadas”, dos vizinhos recorda o regedor Laranjeira, “de suíças ruivas lançadas em penacho aos cantos, grandes mãos calejadas e faces de vinagre”, que, por vezes, o acompanhava pelos seus passeios, falando “das vindimas, dos milhos queimados e da fruta”.

Outra figura importante dos tempos do Fontão foi Emília, “a noiva de sorriso esquecido a um canto dos lábios”, que foi o seu primeiro amor: “mais tarde vieram os tremores escondidos do primeiro beijo atrás duma meda de palha, numa espadelada ao luar, com a timidez sobressaltada da Emilita. Ela corou muito, corou muito e fugiu”. Seguiriam caminhos diferentes.


No que respeita às festas, é a de Nossa Senhora do Carmo, tradicionalmente celebrada a 16 de Julho, que merece maior destaque. Esta encontrava-se, intimamente, ligada ao solar herdado pelo pai, pois era na capela da quinta do Fontão que estava a imagem da padroeira.

Era também aí que se celebrava, no segundo dos três dias que durava a festividade, a eucaristia:

“Logo no outro dia – domingo – manhãzinha cedo, começam a vir os padres de longe, a cavalo em éguas de cabeça esbatida, com malhas brancas nas patas, e estribos de caixa à antiga. Chegam todos e ao meio-dia em ponto, entre o compasso acentuado e grave da batuta do regente da música e a cantilena roufenha e solene da festa, dá-se começo ao palmear sagrado da missa. A capelinha é um santuário de madeira gasta, amarelecida. Nela a Padroeira está risonha, e tem uns olhos muito puros e muito suaves para minha Mãe e para a velha Ana que andaram nesse dia desde o raiar do Sol a aperaltar as jarras com florões de buxo e de camélias. Terminada a festa é o almoço dos padres lá em casa, enquanto os músicos lá fora vão entornando, numa santa jucundidade, a última alegre gota do quente sangue de Cristo".


“Religião do Sol” é, provavelmente, o título mais sugestivo de toda a sua vasta obra. De carácter autobiográfico – apesar do autor contar à época apenas 17 anos, idade talvez muito precoce para uma tão grande nostalgia –, estas prosas rústicas parecem encerrar um carácter ritualista, que marca a passagem da infância para a vida adulta, ou seja, a saída, porventura dolorosa/traumática, da casa paterna no Porto e a entrada na Academia, em Coimbra, longe dos que lhe eram mais próximos e queridos.

"Religião do Sol" reflecte a idiossincrasia lusa, patente no processo de estereotipação que opera nas descrições do pessoal doméstico e do ambiente pastoril e inocente, com que descobre o amor. Retrata também a dualidade campo/cidade, dicotomia que pode ser vista como “produto” da vida de Augusto de Castro, uma vida ora citadina, no Porto, ora campestre, no Fontão.


As longas temporadas no Fontão e em Angeja seriam, novamente, recordadas – com nostalgia e saudosismo – por Augusto de Castro, já na fase adulta, ao aceder escrever o prefácio da obra “Angeja e a Região do Baixo Vouga”, de Ricardo Nogueira Souto. Nesse evoca, uma vez mais, a importância desse período para a formação do seu espírito e carácter:

“Se toda a nossa vida é dominada pelas impressões da primeira idade, eu devo, sem dúvida, às fontes risonhas, aos calmos e ondeantes campos, às estradas luminosas, às romarias, aos vinhedos e aos pomares do Baixo Vouga, em que fui criado, esse fundo de optimismo tranquilo, de confiança jovial e de sereno amor pelo espaço e pela luz que sempre, que até hoje, dominou o meu espírito”.”

Nas primeiras páginas dessa monografia local reconhece que falar de Angeja ou do Fontão é “uma evocação dos doces, frescos e cantantes vergéis do Vouga em que meus primeiros anos decorreram”. Nessa obra relembra como, no Verão, nos dias quentes do mês de Agosto, percorria “o túnel de Angeja, a pateira de Frossos e as estradas”; observava “a ria, as areias e as águas claras do Vouga”; “bebia água das fontes”; e contemplava “os milharais ao vento, os adros floridos, os pinhais, as eiras com o milho dourado ao sol, os rebanhos nos campos”.


Não se esqueceu, de igual modo, que foi aí que saboreou, pela primeira vez, a caldeirada de peixe do rio de Aveiro, “cheirosa, fumegante, crepitando de azeite e côdeas de trigo; espessa e picante, capaz de ressuscitar o estômago de um morto”. Nem olvida o convívio com algumas das personalidades mais importantes da região, visitas frequentes de seu pai: o Padre Santos “alto e espaduado, bom como uma criança”, o “Padre Zezinho, que tinha e, felizmente, ainda hoje tem talento e graça às carradas”, o Castanheira, o Laranjeira, o Manuel Maria de Angeja, “em cuja casa, durante a festa da senhora das Neves se comiam os melhores leitões assados da região”, e os Lemos de Alquerubim.

Pormenor de não menos importância, é o facto de associar à quinta do Fontão a imagem que guarda da mãe: “quando recordo minha Mãe é, sob os caramanchões do jardim, em que duas grandes bicas de água ora soluçam, ora cantam, que a vejo passar e chamar-me, perpetuamente viva, com seus grandes olhos que pareciam sempre rezar quando me viam”.

Angeja, o Fontão e a festividade de Nossa Senhora do Carmo assumiriam uma tal relevância para Augusto de Castro que este, mais tarde, só viria a partilhar o espaço com aqueles que lhe eram mais próximos – o poeta João Lúcio, colega do curso de Direito, companheiro da toada coimbrã; e os escritores e políticos, Júlio Dantas e Carlos Malheiro Dias [autor de "Os Telles de Albergaria" sem qualquer ligação ao nosso concelho], amigos com quem compartilhava o gosto pela poesia, pelo romance, pelo teatro, mas também pelo jornalismo, pela política e pela diplomacia. Dito de outro modo: com os amigos forjados na juventude e nos primeiros anos da fase adulta, mas que se prolongariam, singularmente, para toda a vida.

Fonte: Dissertação “Arte de falar e arte de estar calado: Augusto de Castro - Jornalismo e Diplomacia” de Clara Isabel Calheiros da Silva de Melo Serrano (adaptado) com base nas obras “Religião do Sol. Prosas Rusticas” (1900) de Augusto de Castro e Prefácio” de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937) de Ricardo Nogueira Souto

Mais informações: Blog de Albergaria / Universidade do Porto / Site do Parlamento / Wikipedia