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sábado, 20 de julho de 2019

Maria Helena Matos - de Angeja para Moçambique ...

Maria Helena Matos e o marido António Matos Ferreira

Maria Helena Matos nasceu em Angeja, a 22 de Dezembro de 1935. Aos 17 anos vai com a família para Moçambique. Esteve no Chibuto, depois Lourenço Marques onde conhece os pais de Maria Rueff. Estes vivem na Beira e tempos depois querendo trabalhar, decide afastar-se da família e ruma à Beira. Fica em casa dos pais de Maria Rueff e cuida dos irmãos dela. Depois consegue fazer uns programas para a Rádio PAX para a locução de Eugénio Corte Real.

Na casa dos Rueff vem a conhecer António de Matos Ferreira, nascido em Cantanhede a 16 de Abril de 1942, que vai fazer o serviço militar a Moçambique, na Força Aérea, e que começa a fazer um programa na Rádio PAX, "Alvorada Musical". Quatro anos depois vão para Lourenço Marques. Em 1965 montam a Agência de Publicidade Arco-Íris, que começa com uma campanha publicitária para a Gazcidla.


Iniciam programas no RCM (Rádio Clube de Moçambique) como o "Paralelo 26", "Tempo de Juventude" e "Parada de Malucos", em que o radialista Luís Arriaga também faz locução. Vão lançar vários discos novidades como "Amor Novo" de Luís Rego. Têm concursos de quadras à cidade em que dois dos mais ferozes concorrentes são Maria José Arriaga e João Gouveia que disputam normalmente os primeiros lugares. Têm também a "Caravela da Saudade", programa que inclui pedidos e mensagens das tropas.

Tornam-se empresários, contratam artistas Sul Africanos para vir cantar a Lourenço Marques, como o caso de Cornelia e Gene Rockwell, no cinema S.Miguel. A Banda Diplomática preenche a 1ª parte e os uniformes são patrocinados por eles. Helena é muito dinâmica e não para quieta. Tem a ambição de querer fazer mais e melhor e promover o meio musical moçambicano.

O logotipo da LM discos no canto superior esquerdo

Em 1971 decidem avançar com uma editora discográfica, fazem contratos com a Movieplay e outras editoras para serem suas distribuidoras, lançam o sêlo (etiqueta)  LM discos, cujo logótipo é desenhado por João Pedro Gouveia. Dos discos lançados contam-se um excelente álbum dos Osibisa, os EPs da Pandilha e muitos outros artistas.

Dos locais, o 1º single de Amélia Muge, com o tema "Natal", um lindíssimo e excelente trabalho, da autoria de Reinaldo Pereira e Raul Baza, um single de Zito e o lançamento de novos grupos como os Adagio Vocal, que tiveram bastante sucesso com "Mamana Joana", e Zé Luís e Midda com "Sargaceiro". No fado também lançaram Carlos Macedo, Américo Fernandes e Alves Salgado.



Além da Etiqueta LM (de Lena Matos ou Lourenço Marques, como era mais conhecida) tinham ainda o sêlo Afro Som. Os rótulos dos primeiros discos tiveram de ser colados à mão devido a dificuldades de prensagem iniciai. Depois tiveram que ir prensar os discos à África do Sul por causa dos impostos exagerados que eram cobrados aos discos. Uma edição tinha normalmente 500 exemplares. Muitas capas foram desenhadas por António Matos, como os discos de Amélia Muge e dos Adágio.

Após o 25 de Abril as dificuldades de negócio multiplicam-se e acabam por ter que vir para Portugal sem que as dezenas de empresas que lhes deviam lhes pagasse e sem conseguirem trazer nada. Ficou um armazém com mais de 20 mil discos de mais de duas centenas de artistas.

O casal, ainda em Moçambique, com uma das filhas

"Em Portugal passámos as passas do Algarve, bastantes dificuldades nunca desistindo" diz Lena. "Como por aqui as coisas não melhoravam, consegui convencer o meu marido a irmos para a Suíça" continua Lena, "estivemos por lá 22 anos, ainda trabalhei na casa de um milionário como Governanta durante 4 anos, mas o António também trabalhava nas fábricas dele e foi subindo até ter posições de chefia. Tinha que viajar muito. Deixei de trabalhar e acompanhava-o".

"Depois viemos para Coimbra onde tinha uma casa. Vendi-a e comprei aqui na Lousã. Na Suíça o António começou a dedicar-se muito a sério à pintura e chegou a fazer exposições em vários Países como a França, Espanha e Alemanha. (...) [E, hoje em dia,] tem feitos muitas exposições desde Cascais ao Norte mas especialmente aqui na zona de Coimbra".

Fonte: Onda pop (João Pedro Gouveia) (adaptado)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

António Manuel Figueira Souto (1910-2011)


Antônio Manoel Figueira Souto nasceu em Angeja em 1910. Emigrou para o Recife aos 13 anos com muitos sonhos e em 1948 mudou-se para São José dos Campos, quando o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) aí se estava instalando.

Foi o responsável por grande parte da desapropriação de suas terras, assim como obrigatoriedade de doação de outras tantas! Participou da discussão da Dutra e da Av dos Astronautas - antiga Brejauveira.

Ganhou o título merecido de cidadão Taboense [Taboão] e Joseense [São José dos Campos].

Dentre tantos reconhecimentos, seu empreendedorismo fez com que aos 98 anos tivesse concretizado o seu sonho final - ter no local onde criou suas 6 filhas, junto com sua esposa Leonor de Almeida Ribeiro Souto, um edifício, onde inúmeras famílias pudessem morar, e viver a vida como ele viveu, com fé, luta e alegria. Em dezembro de 2014 seu sonho se tornou realidade com a inauguração do Edifício Jd Souto, no bairro Jardim Souto.

Leonor de Almeida Ribeiro Souto

Leonor de Almeida Ribeiro nasceu em São Gabriel da Cachoeira, que na época pertencia à região do Amazonas. Aos 4 anos seu pai Armênio Ribeiro, de Angeja, a levou para sua terra, onde foi criada e se casou com Antônio Manoel Figueira Souto ... e vieram para o Brasil definitivamente em 1939.

Avenida Leonor de Almeida Ribeiro Souto


O contributo de Leonor de Almeida Ribeiro Souto e António Manuel Figueira Souto para a história de São José dos Campos foi reconhecido pela atribuição do nome da esposa à Avenida Leonor de Almeida Ribeiro Souto.

Quando mudaram para São José dos Campos a cidade tinha 20.000 habitantes e hoje tem 700.000 habitantes.

Em 26 de dezembro de 1958 foi oficializada a doação de um terreno com a área de 45.730,00 m2 no Município de são José dos Campos, Estado de São Paulo, que se destinava ao Centro Técnico Aeroespacial.

Os Souto fundaram o Bairro Jardim Souto, um dos poucos loteamentos feitos com infraestrutura completa custeada pelos loteadores, o que fez toda a diferença num país como o Brasil.

Foto com história


A tradicional "Feira dos 26" de Angeja foi relançada em 2014 e na versão de 2015 foi utilizada uma foto em que podemos ver Leonor de Almeida Ribeiro aos 18 anos, de sobretudo preto, quando António Manuel Figueira Souto a conheceu e se apaixonou.

"Pacto Existencial - Uma lição de amor, liderança e espiritualidade" de Cristina Souto Rigotti (2010)


Através da vida de um imigrante português, a autora retrata momentos de luta, persistência, superação, liderança inata, e acima de tudo, a fé em Deus.

Mostra a história de um Brasil na Segunda Guerra Mundial, que talvez muitos não atentaram quando jovens, retratando um cenário de preconceito, de disputa, de autoritarismo, ainda tão comum entre nossos governantes.

Nesta envolvente história real, a autora faz uma relação com os conceitos de liderança situacional ao lidar com pessoas, de coaching com suas metas bem claras, da paixão pelo trabalho que faz a diferença na busca de resultados de alta performance, das aprendizagens ao dizer adeus às conquistas, do espírito empreendedor e pleno da amizade e finalmente a espiritualidade inerente aos seres humanos, filhos do Criador. (...)

Enfim, este livro é uma homenagem a cada pessoa desbravadora da própria vida, que planeja, foca e ousa transformar o mundo à sua volta. É uma homenagem a seu pai de 100 anos, que vive a vida na sua mais completa plenitude e que nunca permitiu que existisse o não em sua vida de empreendedor. E a morte? Para ele, é desaparecer da terra, nada mais, ou algo a mais! (...)

Fontes: Cristina Souto Rigotti (filha) / Scortecci 

domingo, 10 de março de 2019

Carlos Luiz Ferreira (1882-1947)


Carlos Luiz Ferreira, proprietário e autarca, nasceu em Pinheiro da Bemposta. Filho do Dr. Manuel Luiz Ferreira Junior, natural de Albergaria-a-Velha, proprietário e presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, e de sua esposa Henriqueta Augusta Luiz Ferreira, natural de Oliveira do Bairro, moradores inicialmente em Bemposta e depois na Casa da Fonte em Albergaria-a-Velha.

Carlos formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi subdelegado do Procurador Régio (1905), vereador da Câmara Municipal (1906-1909) e Presidente da Câmara Municipal (1919) e Administrador do Concelho (1908-1010).

Foi igualmente escrivão do 1º ofício da comarca de Albergaria-a-Velha (1910-1014) e Advogado.

Foi o fundador da Quinta das Cruzes (que actualmente é propriedade do Dr. Rui Marques) na Rua das Cruzes também conhecida por Quinta do Dr. Carlos ou Quinta dos Luizes.

Fonte: "Albergaria-a-Velha 1910 ..." de Delfim Bismarck Ferreira e Rafael Marques Vigário (adaptado)

Agradecimento: Ana Ferreira (bisneta), Delfim Bismarck, Óscar Fernandes (em grupo "Famílias de Albergaria") 
 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Albérico Martins Pereira (1912-1993)


Nasceu em 4 de Dezembro de 1912 na Rua do Negrão, freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada, Açores, durante a vivência de seus pais naquele arquipélago. Passa a infância em Ponta Delgada, até que no início de 1921 se instala com seus pais em Albergaria-a-Velha, onde passam a residir, aí se instalando com a Fundição Lisbonense.

Depois de uma vida de "bon vivant" e de ter estudado na École Superieur de Fonderie, em Paris, de 1936 a 1938, sem concluir qualquer grau académico, Albérico Martins Pereira regressa a Albergaria-a-Velha para começar a colaborar mais na empresa.

A Alba está em franca expansão e os irmãos Américo e Albérico deslocam-se a Londres logo após o final da Guerra (1945) para adquirirem sucata, onde são entrevistados por Fernando Pessa. No ano seguinte, a 15 de Dezembro de 1946, torna-se director do jornal Beira Vouga, propriedade de seu pai, onde se manteria até 13 de Agosto de 1953.


Em Dezembro de 1947, a imprensa local noticia que Albérico Martins Pereira havia seguido, em viagem comercial, para Espanha, França, Suíça e Itália, o que acontecia com alguma frequência.
No entanto, após a morte de seu irmão (Setembro de 1949), Albérico passa de facto a ser o braço direito de seu pai, não apenas desdobrando-se em contactos com os poderes oficiais, mas também em tudo o que diz respeito com a indústria. Foi assim durante toda a década de 50. [Foi igualmente responsável pela gestão dos escritórios em Lisboa, na Rua dos Correeiros].

Casou em 1960, em Nossa Senhora de Fátima, Lisboa, com D. Maria Helena Velhinho, natural de Lagos. Ao longo dos anos, teve ainda tempo para desempenhar diversos cargos, sempre em defesa dos interesses do concelho de Albergaria-a-Velha. Foi vice-presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, presidente da Assembleia Geral da Associação dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha, presidente da Casa da Comarca de Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga, em Lisboa, entre outros.

(…) Faleceu em 1 de Novembro de 1993 em Lisboa, deixando dois filhos: Alexandra e Augusto.

Fonte: "Alba-Uma Marca Portuguesa no Mundo" de Delfim Bismarck Ferreira e Pedro Martins Pereira 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Fernando Marques Vidal, ilusionista


Fernando Marques Vidal é um ilusionista natural de Albergaria-a-Velha, que desde 1980 teve uma participação activa nos corpos directivos da API (Associação Portuguesa de Ilusionismo).

Estudou no Colégio Vera Cruz – Alvaiázere e no ISEL - Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, mas desde cedo apostou na sua actividade de ilusionista, actuando sobretudo em festas e outros eventos, tendo sido igualmente integrante do Grupo do Teatro Mágico da API e mentor da associação Cartola Mágica.

Marques Vidal dedicou-se durante muitos anos à organização de grandes eventos mágicos em Portugal, dos quais se destacam os Congressos do Estorilmágico de 1995, 1996 e 1997.


Foi Presidente da API durante 10 anos, tendo sido nessa qualidade um dos principais responsáveis pela organização dos Festivais de Magia de Oeiras 2001, 2002 e 2003, bem como do Festival Internacional de Magia de Albufeira 2007 e do Campeonato Mundial de Magia em 2000 no CCB com a presença de 2100 mágicos de todo o Mundo.

Acumulou igualmente a qualidade de Presidente da FISM – Federação Internacional das Sociedades Mágicas (cargo que ocupou durante os 3 anos de preparação do Campeonato Mundial).

Participou, ainda, na organização da maior parte dos Festivais de Magia da Amadora e de alguns Festivais de Magia da Figueira da Foz (entre 1988 e 1993). E colaborou na organização de Convenções no Teatro S. Luiz, no Teatro da Trindade, no Teatro D. João V da Amadora, no Casino da Figueira da Foz, a par de outras iniciativas.

Foi co-tradutor dos livros de magia "Truques de cartas" de Rita Danyliuk e "O livro dos truques de magia" de Peter Eldin.

É pai da apresentadora de rádio Mariana Marques Vidal (que nasceu no Porto e colaborou na Rádio Renascença, Rádio Clube Português, M80, Rádio Star e Rádio Sim) e da ilusionista Francisca Marques Vidal, que seguiu as suas pisadas.

Mariana Marques Vidal na Rádio Sim (Grupo Renascença)

Francisca Marques Vidal no programa "Sociedade Civil" (RTP2)

Fontes: Portal de Artistas / Cartola Mágica / Sociedade Civil (minuto 17) / António Cardinal

domingo, 10 de junho de 2018

Fernando Corujo Pinto Perfeito, comerciante e dirigente associativo em Lisboa


Fernando Corujo Pinto Perfeito, filho de Manuel Pinto Perfeito e de Maria da Conceição Corujo, nasceu em 21 de Outubro de 1934 no então lugar da Branca, Albergaria-a-Velha.

Vive desde 1945 em Lisboa no Bairro da Encarnação, na freguesia dos Olivais, sendo dono da loja mais antiga do Bairro da Encarnação, que se dedica ao comércio de electrodomésticos e material eléctrico.
 


Já fez um pouco de tudo no movimento associativo. Tornou-se seccionista ainda menor, tanto que o seu pai até teve de assinar uma autorização especial, sancionada pelo Governo Civil.

Foi um dos "homens-fortes" da ADCEO [Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais],  deu muito ao Desporto, mas também à Cultura e associativismo lúdico, bem como, numa fase posterior, ao empresarial.

O Campo Fernando Perfeito, no Bairro da Encarnação, em Lisboa, assim baptizado em reconhecimento do seu empenho e dedicação, foi inaugurado em 23 de Junho de 2004.


Foi Presidente da Assembleia geral da Associação dos Comerciantes de Adornos e Utilidades do Distrito de Lisboa e foi homenageado recentemente pela União de Associações do Comércio e Serviços (UACS).

A distinção foi dupla: Fernando Perfeito recebeu o Emblema de Ouro pelos 50 anos de filiação na UACS e teve ainda o privilégio de ver o seu nome atribuído à Sala do Arquivo Histórico, uma honra justificada pelos mais de 20 anos como dirigente nas associações integradas e na própria UACS.

Fernando Perfeito recebeu igualmente a Medalha de Mérito Olivalense em 2016.


Mais informações: UACS / Expresso do Oriente / Facebook / Portal do Electrodoméstico

terça-feira, 10 de abril de 2018

Manuel Francisco Arede (1920-2016)


Manuel Francisco Arede nasceu em 30 de Abril de 1920 em Albergaria-a-Velha. Cedo se tornou ferroviário da C.P., indo residir para Silvalde, Espinho, de onde reformou.

Emigrou em Junho de 1961, para Paris, sendo mais tarde indicado pelo Embaixador de Portugal em Paris, Dr. António Coimbra Martins (posteriormente Ministro da Cultura), para organizar o Cemitério Português na Flandres no seguimento das comemorações do aniversário da morte do general Charles de Gaulle.

Foi então o grande incentivador das primeiras Comemorações da Batalha de La Lys, em 1978, e da organização do Cemitério Português de Richebourg-La-Voué, e do monumento aos soldados portugueses erigido em La Couture, na Flandres, em 1982, o que o levou a ser agraciado com as seguintes condecorações e louvores:

- Grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído em 16 de Agosto de 1983 pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, composto de duas medalhas, “por haver prestado serviços relevantes no estrangeiro, serviços de expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, sua história e seus valores”.
- Medalha da Liga dos Combatentes da Grande Guerra;
- Medalha da Câmara Municipal de Lille (França);
- Louvor do Estado Maior do Exército Português,
- Louvor da Família do General Charles de Gaulle.

Foi candidato à Assembleia Municipal pelo PSN (Partido da Solidariedade Nacional), conhecido como Partido dos Reformados, em 1993.

Havia regressado a Portugal em 1980, indo residir para o lugar de Açores, Valmaior, terra natal de sua mulher. Depois de viúvo, transferiu residência para Albergaria-a-Velha, onde faleceu em Novembro de 2016.

Fonte: Dr. Delfim Bismarck em grupo do Facebook "Famílias de Albergaria" (adaptado)

Mais informações: Novos Arruamentos

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Vicente Rodrigues Faca, comerciante e autarca (1864-1937)


Vicente Rodrigues Faca nasceu em Alquerubim em 8 de Outubro de 1864. Casou em Albergaria-a-Velha com D. Isaura da Silva Vidal. Residiram em Alquerubim, antes de emigrarem em 1899 para a Cutumbela, Benguela, Angola, de onde regressaram definitivamente, depois de 1904, instalando-se em Albergaria-a-Velha.

Foi proprietário da Pensão Faca e depois fundador e proprietário do Hotel Vouga (inaugurado em 15 de Setembro de 1910 no Largo do Chafariz), com restaurante, café e bilhar. E teve igualmente um armazém de calçado na Praça Ferreira Tavares.

Hotel Vouga
Aderiu logo à República em Outubro de 1910; foi Presidente substituto e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, em 1910;  Vereador da Câmara entre 1910 e 1911; Director do Grémio Recreativo Albergariense em 1910; Administrador do Concelho em 1915 e 1917; Presidente da Câmara Municipal entre 1918 e 1919 e, posteriormente, entre 1925 e 1926; co-redactor do jornal  "O Concelho de Albergaria" em 1918 e 1919; e foi co-fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha.

Casou em Albergaria-a-Velha com D. Isaura da Silva Vidal. Residiram em Alquerubim, antes de emigrarem em 1899 para a Cutumbela, Benguela, Angola, de onde regressaram definitivamente, depois de 1904, instalando-se em Albergaria-a-Velha.

Faleceu em 3 de Agosto de 1937 na Praça Comendador Ferreira Tavares em Albergaria-a-Velha.

Fonte: "Albergaria-a-Velha 1910-da Monarquia à República" de Delfim Bismarck Ferreira e Rafael Vigário (adaptado)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

João Ferreira Pinto (1895-1961)


João Pinto, comerciante, artista e professor de liceu, nasceu em Albergaria-a-Velha, no Largo Rainha D. Teresa, nos finais do século XIX e aqui decorreu toda a sua vida. Feitos os primeiros estudos, seguindo a tradição familiar, ingressou na morna vida comercial do marasmo albergariense. Mas o seu espírito era o de um artista que, noutro meio, estaria fadado para voos diferentes. Muito jovem ainda, envolveu-se nos grupos culturais da vila e fez parte da Filarmónica, onde aprendeu música e de que veio a ser, mais tarde, regente. Ainda fez parte do grupo "Os Modestos", começando aí a sua faceta teatral.

Na segunda década do século XX é um dos fundadores e o principal animador do grupo "Pró-Albergaria", uma sociedade dramática e musical que vai ter grande projecção cultural, animando serões em Albergaria e povoações vizinhas e mesmo nos concelhos limítrofes. Ele é maestro, compositor e também notável intérprete e ensaiador teatral.

Em 1925 era director da Empresa do Cine-Teatro que ergueu a primeira, bela mas inacabada, casa de espectáculos que houve na vila. Funda então o "Orfeon de Albergaria" de que é regente e ensaiador, distinguindo-se de novo em festas e saraus. Tocava vários instrumentos musicais, mas era sobretudo excelente executante de violoncelo.

Entretanto foi colaborador assíduo, quer em prosa quer em verso, dos periódicos locais, nomeadamente do "Jornal de Albergaria", "Gazeta de Albergaria", "A Gazeta" e "Beira-Vouga", tendo-se distinguido especialmente nas gazetilhas nas quais ironicamente gozava os pequenos "faits divers" da vida local, assinando "Tojon Pião".

Foi co-fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha (1925), secretário da Assembleia Geral do Sport Clube Alba (1941), Vogal da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia de Albergaria-a-Velha (1954) e proprietário de uma tabacaria e livraria.

Era ainda pintor e paisagista, usando especialmente o carvão, processo então em moda. Foi professor de Desenho dos alunos do Colégio de Santa Cruz, o primeiro que existiu em Albergaria, entre 1927 e 1935 e posteriormente no recém-fundado Colégio de Albergaria.

Era um espírito alegre, crítico e sadio, cheio de bonomia, que viveu metade da sua vida honrada e modestamente como correspondente bancário, esquecido do seu valor que podia ter voado bem mais alto.

Faleceu em 20 de Junho de 1961 em Albergaria-a-Velha.

Fontes: "Gente Ilustre em Albergaria-a-Velha" de António Homem de Albuquerque Pinho / "Albergaria-a-Velha 1910-da Monarquia à República" de D. Bismarck Ferreira e R. Vigário

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

José Armando da Silva Ferreira, advogado (1933-2013)


José Armando da Silva Ferreira nasceu a 19 de Agosto de 1933 em Albergaria -a-Velha, filho de Ezequiel da Silva e de Esmeralda da Silva Ferreira.

Frequentou os Seminários dos Olivais e de Évora, abandonando quando estava para ser ordenado sacerdote para se casar em 1963 com Mana Aida Coelho de Lemos da Silva Ferreira.
Licenciou-se pela Faculdade de Direito de Lisboa, em 17 de Outubro de 1967, começando por ser Inspector do Instituto Nacional de Trabalho. Inscreveu-se como Advogado em 25 de Agosto de 1969, passando a exercer em Lisboa.


Silva Ferreira escreveu o Manual de Direito do Trabalho III Volume, publicado em 1972 pela FDL (Faculdade de Direito de Lisboa) e foi Administrador das Galerias RITZ , em Lisboa, em 1973.

Ainda no período pré-revolucionário foi advogado do editor Romeu de Melo no âmbito do famoso  caso das “Três Marias”, no processo relativo à obra “Novas Cartas Portuguesas”, a qual logo após publicação foi considerada deletéria [nociva] ao regime e proibida pela censura. Os textos foram considerados “imorais” e “pornográficos” pois retratavam mulheres livres, que questionavam a sua identidade e expressavam o desejo de aceder a novas ideias sociais e religiosas, em tom de revelação, com várias vozes narrativas”. O processo acabaria suspenso e as autoras absolvidas somente após o 25 de Abril de '1974.

Ao fundo à esquerda
Após o 25 do Abril, Silva Ferreira integra o movimento ligado às artes e à política, fazendo parte do seu núcleo de amigos: Sousa Tavares, Natália Correia, Amadeu Dias, Paiva de Carvalho, Carvalho Fernandes, José Drago, entre outros. No Verão Quente foi sequestrado na Praça de Londres, em Lisboa, por um grupo de manifestantes. O seu nome constava na célebre lista do Campo Pequeno de Otelo Saraiva de Carvalho.

Em 1975, com Adelino da Palma Carlos, colabora e elabora normas constitucionais na área do Direito de Trabalho que viriam a constar do texto de1976 da Constituição. Como advogado da IPM – Indústria Portuguesa de Munições foi, por diversas vezes, ameaçado pelas FP 25. Nos anos 80 foi advogado do Prof. Dr. Virgílio Borges no gigantesco processo que a Câmara Municipal de Cascais lhe moveu sobre a implantação do maior painel solar fotovoltaico que veio a ser aprovado e implantado.

Foi também advogado da RENA e da Alitalia, bem como de importantes clientes internacionais. Presidente da Assembleia Geral da ENGIL e da Air Liquide e Vogal do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem de Advogados (no triénio 1984-1986).

Foi administrador do Legado Napoleão, por indicação da Câmara Municipal, do qual se afastou no final dos anos 90 por divergências com a autarquia presidida pelo Dr. Rui Marques.

Exerceu advocacia até Dezembro de 2005, altura em que se aposentou e transferiu residência para Albergaria-a-Velha onde faleceu em 19 de Abril de 2013.

Fonte: Correio de Albergaria (Adaptado)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Joaquim Nunes Alves, empresário em Belém do Pará (1912-2010)


Joaquim Nunes Alves nasceu no lugar do Sobreiro, em Albergaria-a-Velha, em 29 de Maio de 1912, filho de António Nunes Alves e Gracinda Santiago Alves. Fez seus primeiros estudos em Albergaria-a-Velha e depois no Porto.

Saiu de Portugal ainda jovem, com 18 anos, para Belém, "chamado" pelo seu irmão mais velho, Augusto Nunes Alves, que já se encontrava aí emigrado. Nessa cidade concluiu o curso de Contabilidade e fez outros nas áreas de Comércio (no então Grémio Literário Português) e de Administração de Empresas.

Deixou em Portugal a mãe, Gracinda (o pai tinha falecido em 1914), e os irmãos Laura, João, funcionário da Fundição Alba, e José Nunes Alves, que foi Presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha na década de 70.


Joaquim iniciou sua vida profissional como simples empregado da firma Silva Santos & Cia., da qual já era sócio seu irmão Augusto Nunes Alves, mas foi progredindo nas lides comerciais até se tornar sócio principal da referida firma,  alterando-lhe a razão social para Cosmorama Indústria e Comércio Ltda., com a admissão de seu sobrinho João Pedro e antigos colaboradores, no crescimento de uma empresa da qual foi Director-Presidente e sócio maioritário.

Foi igualmente fundador da Espelhorama Ltda. e da Vidrorama Ltda., que conseguiu fazer crescer ao longo de muitos desafios e dificuldades de todos os tipos.

Além de Industrial, Comerciante e Pecuarista, era conhecido também por sua dedicação às causas sociais, tendo presidido à Benemérita Sociedade Beneficente Portuguesa do Pará durante quatro mandatos. Dirigiu igualmente a Federação Brasileira de Hospitais e foi Conselheiro e Director da Fundação do Bem Estar Social, bem como presidiu à Consanpa, Fadesp e Cinbesa.  


Foi Presidente da Associação Comercial do Pará e do Rotary Club de Belém e dirigente da Assembleia Paraense, Pará Clube, Tuna Luso Brasileira e antigo Automóvel Clube. E integrou igualmente a comissão de festejos para Nossa Senhora de Nazaré por vários anos.

Pelo seu empreendimento empresarial recebeu as Comendas da Ordem da Benemerência concedida pelo Estado Português, Ordem do Mérito Grão Pará (com grau de Comendador, concedida pelo Governo do Estado do Pará) e o título de Cidadão de Belém.

Foi ainda agraciado como Comerciante do Ano, pela Associação Comercial do Pará, e recebeu várias medalhas e diplomas de Honra ao Mérito, concedidas pela Câmara Municipal de Belém, e recebeu a Palma Universitária da UFPA.

Faleceu no dia 3 de maio de 2010 em Belém, poucas semanas antes de completar 98 anos.

Fontes:  Who's who in Brazil / Portal ORM / Revista da Academia Paraense de Letras / Blog de J.A.Rodrigues / Personagens do Comércio / Familiares (*)

(*) Agradecimento especial: Profª Laura Maria (filha), Dra. Marcela Tostes (neta) e restante família

Casa do Sobreiro

(mais fotos ... )

sábado, 10 de junho de 2017

Francisco Dias de Oliveira, familiar do Santo Ofício (1722-1812)


Francisco Dias D’Oliveira, 1º Senhor da “Casa do Mouro”, filho de Miguel Dias D’Oliveira e de D. Maria João, nasceu em 24 de Setembro de 1722 em Albergaria-a-Velha, onde foi baptizado na Igreja Paroquial em 29 do mesmo mês pelo Padre Cura Manuel Álvares Ferreira, tendo por padrinhos: José Gonçalves e D. Isabel Marques, filha de Rafael Ferreira Torrão.

Emigrou para o Rio de Janeiro ainda novo, onde com seu irmão José Dias D’Oliveira adquiriu grande fortuna, ao serem proprietários de uma companhia de navegação, possuindo duas corvetas “Nossa Senhora da Conceição” e “Santa Rita”, com as quais negociavam entre Santa Cruz e Angola.

Regressou a Portugal no início da década de 60, vindo casar a Albergaria-a-Velha, em 1768, com sua prima em 3º e 4º grau D. Maria Joana Álvares Ferreira, filha dos 2ºs Senhores da “Casa do Outeiro ou da Rua de Cima” Vicente Ferreira e de D. Dionísia Josefa Álvares Ferreira.

Fez parte da Companhia de Jesus e foi nomeado Familiar do Santo Ofício por carta passada em 29 de Janeiro de 1762, onde é chamado “Homem de negócio”.

Faleceu em 9 de Julho de 1812 em Albergaria-a-Velha, sendo sepultado no dia seguinte dentro da Igreja Paroquial, deixando seis filhos.

Fonte: Delfim Bismarck Ferreira (em marforum)

Mais informações: "Casa e Capela de Santo António em Albergaria-a-Velha" de Delfim Bismarck Ferreira e Revista Albergue

Imagem: extracto de retrato a óleo da autoria de Giorgio Martini (capa da edição nº 2 da Revista Albergue)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Armando Vidal, músico e maestro


Armando Vidal nasceu em Albergaria-a-Velha em 23-01-1947. Iniciou muito cedo os seus estudos musicais, concluindo no Conservatório Regional de Aveiro o Curso Superior de Piano com grande distinção. Como bolseiro da Fundação Gulbenkian fez estudos de aperfeiçoamento com os professores Croner de Vasconcellos, Karl Engel, Paul von Schillawsky, Melina Rebelo e Lígia Ebo.

Fez uma carreira de pianista colaborando com grandes nomes nacionais e internacionais do canto, sobretudo no campo da Ópera, uma vez que foi Maestro assistente durante largos anos no Teatro Nacional de S. Carlos. Começou por se apresentar com o barítono Oliveira Lopes em concertos, tendo gravado para a RDP e RTP vários ciclos de Schubert, Schumann, Beethoven.


Tocou em Portugal, Madeira, Açores, Macau, Angola, Marrocos, Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Roménia, com os mais reputados cantores portugueses de várias gerações. Acompanhou em concerto nomes como Elsa Saque, Joy Bogen, Mara Zampieri, Fiorenza Cossotto, Ivo Vinco, Carlo Bergonzi.

Dirige orquestras em variados programas de Concerto, Oratória e Ópera, desde 1980. Além do Teatro Nacional de S. Carlos, dirigiu concertos e espectáculos do Real Teatro de Queluz, Companhia Portuguesa de Ópera, Orquestra do Norte, Teatro Ibérico, entre outros.


Foi professor no Conservatório Nacional de Lisboa, na classe de Música de Câmara, e na Escola Superior de Música de Lisboa, na classe de Competição. Exerceu igualmente funções de professor em diversas cadeiras nos Conservatórios Regionais de Aveiro, Ponta Delgada e Braga.

E colaborou em diversos Cursos de Interpretação com Paul Tortelier, Karene Giorgian, Ludwig Streicher, Regina Resnick, Ileana Cotrubas e Mara Zampieri.


Colaborou em várias edições discográficas e programas para a Rádio e Televisão. Das suas gravações mais recentes contam-se “A Canção Portuguesa” com Carlos Guilherme e “Casablanca – Os Êxitos da Broadway” com o Real Teatro de Queluz.

Gravou música para os filmes de Manoel de Oliveira "Mon Cas" ("O meu caso") e "Os Canibais", interpretando obras originais de João Paes, e colaborou na música do filme “Amor de Perdição”, igualmente de Manoel de Oliveira.

Fontes/Mais informações: Facebook / Youtube / Teatro Ibérico / Câmara Municipal de Guimarães

sexta-feira, 10 de março de 2017

As memórias do Fontão de Augusto Castro em "Religião do Sol" (1900) e Prefácio de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937)


Os primeiros anos da vida de Augusto de Castro (1883-1971) foram repartidos pelo Porto e pela Quinta do Fontão, em Angeja. Seria ao Vouga e aos seus “fundos de paisagem polvilhados a oiro”, que a sua infância e juventude ficariam indelevelmente ligadas, como o próprio reconheceria, algumas décadas mais tarde:

“Todo o homem é, espiritualmente, filho da paisagem que iluminou a sua infância. A nossa alma é moldada na terra. Nascido no Porto, tripeiro de origem, foi nas terras do Vouga que passei, posso dizer, a minha infância. De lá, espiritualmente, parti. Quando meus Pais vinham passar as férias do Natal, da Páscoa ou as férias grandes ao Fontão, a pouco mais de três quilómetros de Angeja, começava para mim a grande evasão rústica da aldeia que foi a primeira e a melhor escola do meu espírito. Se, mais tarde, a vida me separou dessas primeiras afeições, nunca na realidade, as esqueci”.


As longas temporadas no Fontão foram descritas em “Religião do Sol”, obra redigida por Augusto de Castro enquanto estudante da Universidade de Coimbra. Nela descreve com minúcia não só as paisagens do Fontão e de Angeja, a quinta, o pessoal de serviço doméstico e os vizinhos, mas também as desfolhadas, as romarias e outras festividades locais. Prova desta pormenorizada narrativa é a sua visão do Fontão:

“A minha fresca aldeia escorrega toda por um carreiro íngreme e pedregoso, num vale que defronta um montado de verdes sombrios, de pinheiros esguios como cadafalsos e folhagens sinistras como almas de corvos. As casas todas se anicham, numa grande pacificação de conforto, brancas, enviuvando há séculos do dono, metendo vento pelas frestas, mas todas elas de peitos amplos, com músculos retesados e vigorosos”.


Se, do pessoal que prestava serviço doméstico na casa, lembra “a boa Ana, limpa, fresca, nas rugas dos seus sessenta anos”, que todas as manhãs o acordava e lhe estendia “os calções de malha, a camisa de folhos e as botas abonecadas”, dos vizinhos recorda o regedor Laranjeira, “de suíças ruivas lançadas em penacho aos cantos, grandes mãos calejadas e faces de vinagre”, que, por vezes, o acompanhava pelos seus passeios, falando “das vindimas, dos milhos queimados e da fruta”.

Outra figura importante dos tempos do Fontão foi Emília, “a noiva de sorriso esquecido a um canto dos lábios”, que foi o seu primeiro amor: “mais tarde vieram os tremores escondidos do primeiro beijo atrás duma meda de palha, numa espadelada ao luar, com a timidez sobressaltada da Emilita. Ela corou muito, corou muito e fugiu”. Seguiriam caminhos diferentes.


No que respeita às festas, é a de Nossa Senhora do Carmo, tradicionalmente celebrada a 16 de Julho, que merece maior destaque. Esta encontrava-se, intimamente, ligada ao solar herdado pelo pai, pois era na capela da quinta do Fontão que estava a imagem da padroeira.

Era também aí que se celebrava, no segundo dos três dias que durava a festividade, a eucaristia:

“Logo no outro dia – domingo – manhãzinha cedo, começam a vir os padres de longe, a cavalo em éguas de cabeça esbatida, com malhas brancas nas patas, e estribos de caixa à antiga. Chegam todos e ao meio-dia em ponto, entre o compasso acentuado e grave da batuta do regente da música e a cantilena roufenha e solene da festa, dá-se começo ao palmear sagrado da missa. A capelinha é um santuário de madeira gasta, amarelecida. Nela a Padroeira está risonha, e tem uns olhos muito puros e muito suaves para minha Mãe e para a velha Ana que andaram nesse dia desde o raiar do Sol a aperaltar as jarras com florões de buxo e de camélias. Terminada a festa é o almoço dos padres lá em casa, enquanto os músicos lá fora vão entornando, numa santa jucundidade, a última alegre gota do quente sangue de Cristo".


“Religião do Sol” é, provavelmente, o título mais sugestivo de toda a sua vasta obra. De carácter autobiográfico – apesar do autor contar à época apenas 17 anos, idade talvez muito precoce para uma tão grande nostalgia –, estas prosas rústicas parecem encerrar um carácter ritualista, que marca a passagem da infância para a vida adulta, ou seja, a saída, porventura dolorosa/traumática, da casa paterna no Porto e a entrada na Academia, em Coimbra, longe dos que lhe eram mais próximos e queridos.

"Religião do Sol" reflecte a idiossincrasia lusa, patente no processo de estereotipação que opera nas descrições do pessoal doméstico e do ambiente pastoril e inocente, com que descobre o amor. Retrata também a dualidade campo/cidade, dicotomia que pode ser vista como “produto” da vida de Augusto de Castro, uma vida ora citadina, no Porto, ora campestre, no Fontão.


As longas temporadas no Fontão e em Angeja seriam, novamente, recordadas – com nostalgia e saudosismo – por Augusto de Castro, já na fase adulta, ao aceder escrever o prefácio da obra “Angeja e a Região do Baixo Vouga”, de Ricardo Nogueira Souto. Nesse evoca, uma vez mais, a importância desse período para a formação do seu espírito e carácter:

“Se toda a nossa vida é dominada pelas impressões da primeira idade, eu devo, sem dúvida, às fontes risonhas, aos calmos e ondeantes campos, às estradas luminosas, às romarias, aos vinhedos e aos pomares do Baixo Vouga, em que fui criado, esse fundo de optimismo tranquilo, de confiança jovial e de sereno amor pelo espaço e pela luz que sempre, que até hoje, dominou o meu espírito”.”

Nas primeiras páginas dessa monografia local reconhece que falar de Angeja ou do Fontão é “uma evocação dos doces, frescos e cantantes vergéis do Vouga em que meus primeiros anos decorreram”. Nessa obra relembra como, no Verão, nos dias quentes do mês de Agosto, percorria “o túnel de Angeja, a pateira de Frossos e as estradas”; observava “a ria, as areias e as águas claras do Vouga”; “bebia água das fontes”; e contemplava “os milharais ao vento, os adros floridos, os pinhais, as eiras com o milho dourado ao sol, os rebanhos nos campos”.


Não se esqueceu, de igual modo, que foi aí que saboreou, pela primeira vez, a caldeirada de peixe do rio de Aveiro, “cheirosa, fumegante, crepitando de azeite e côdeas de trigo; espessa e picante, capaz de ressuscitar o estômago de um morto”. Nem olvida o convívio com algumas das personalidades mais importantes da região, visitas frequentes de seu pai: o Padre Santos “alto e espaduado, bom como uma criança”, o “Padre Zezinho, que tinha e, felizmente, ainda hoje tem talento e graça às carradas”, o Castanheira, o Laranjeira, o Manuel Maria de Angeja, “em cuja casa, durante a festa da senhora das Neves se comiam os melhores leitões assados da região”, e os Lemos de Alquerubim.

Pormenor de não menos importância, é o facto de associar à quinta do Fontão a imagem que guarda da mãe: “quando recordo minha Mãe é, sob os caramanchões do jardim, em que duas grandes bicas de água ora soluçam, ora cantam, que a vejo passar e chamar-me, perpetuamente viva, com seus grandes olhos que pareciam sempre rezar quando me viam”.

Angeja, o Fontão e a festividade de Nossa Senhora do Carmo assumiriam uma tal relevância para Augusto de Castro que este, mais tarde, só viria a partilhar o espaço com aqueles que lhe eram mais próximos – o poeta João Lúcio, colega do curso de Direito, companheiro da toada coimbrã; e os escritores e políticos, Júlio Dantas e Carlos Malheiro Dias [autor de "Os Telles de Albergaria" sem qualquer ligação ao nosso concelho], amigos com quem compartilhava o gosto pela poesia, pelo romance, pelo teatro, mas também pelo jornalismo, pela política e pela diplomacia. Dito de outro modo: com os amigos forjados na juventude e nos primeiros anos da fase adulta, mas que se prolongariam, singularmente, para toda a vida.

Fonte: Dissertação “Arte de falar e arte de estar calado: Augusto de Castro - Jornalismo e Diplomacia” de Clara Isabel Calheiros da Silva de Melo Serrano (adaptado) com base nas obras “Religião do Sol. Prosas Rusticas” (1900) de Augusto de Castro e Prefácio” de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937) de Ricardo Nogueira Souto

Mais informações: Blog de Albergaria / Universidade do Porto / Site do Parlamento / Wikipedia 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Fausto Xavier (1909-1995), médico com alma de artista


Fausto Tavares Xavier Lopes Rodrigues nasceu em 25 de Maio de 1909 no lugar das Azenhas, em S. João de Loure e era filho do Juiz de Direito António Tavares Xavier, natural de Macinhata de Vouga, e de D. Maria Rodrigues da Costa Lopes Xavier, a conhecida D. Maria das Azenhas, que foi presidente da Junta de freguesia de S. João Loure.

Fez a instrução primária na escola de S. João de Loure, na Rua do Cabo, tendo sido aluno dos professores Matias, de Ílhavo e, depois, Joaquim Baeta, de Pinheiro. Frequentou o Liceu José Estevão de Aveiro, concluindo o curso com alta classificação.

Ingressando na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1926, aí terminou a sua licenciatura em 26 de Julho de 1932 também com alta classificação. A menor nota que obteve, durante todo o curso, foi de 15 valores a Bactereologia.


Ainda em 1932 foi exercer a sua profissão para Lisboa, pois em S. João de Loure não tinha qualquer hipótese de 'governar a sua vida' visto sua mãe lhe ter implorado que nunca levasse dinheiro pelos seus serviços a pessoas de S. João de Loure.

No exercício da sua vida profissional, com várias especialidades, nomeadamente Medicina Tropical e Hidrologia, desenvolveu a sua actividade como Interno dos Hospitais Civis de Lisboa, cirurgião do Hospital do Rego, em Lisboa, director dos Serviços de Estomatologia do Hospital Militar da Estrela, pediatra no Hospital de D. Estefânia, assistente no Hospital Sanatório da Ajuda, além de ter o seu consultório particular, que nunca abandonou. Como foi médico militar possuía a patente de capitão.

Foi concertista de guitarra de Coimbra com formação musical, multi-instrumentista, autor de repertório próprio e executante do repertório de Artur Paredes, violino na Tuna Académica da Universidade de Coimbra e Presidente desta agremiação no ano lectivo de 1931-1932.


É autor, entre outras obras, dos hinos das Bandas Musicais da sua freguesia, a de S João e a de Pinheiro, letra e música, os quais estão registados na Sociedade Portuguesa de Autores (S.P.A.). Era poeta de um lirismo de recorte bucólico.

Além de médico, poeta e músico, também foi desportista de mérito, tendo sido campeão nacional e recordista do salto à vara, entre 1931 e 1937.

Casou em 1937, em Santarém, com a Dra. Paulina Canova de Magalhães, natural de Cantanhede, licenciada em Farmácia aos 21 anos, também com alta classificação. Tem dois filhos, Nuno António e Fausto Jorge, ambos distintos médicos, o primeiro especialista em Geriatria e o segundo em Otorrinolaringologia.

Fontes: Dr. Sousa e Melo (em Jornal de Albergaria) (adaptado) / Blog "Guitarra de Coimbra" (1) (2)