sexta-feira, 10 de março de 2017

As memórias do Fontão de Augusto Castro em "Religião do Sol" (1900) e Prefácio de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937)


Os primeiros anos da vida de Augusto de Castro (1883-1971) foram repartidos pelo Porto e pela Quinta do Fontão, em Angeja. Seria ao Vouga e aos seus “fundos de paisagem polvilhados a oiro”, que a sua infância e juventude ficariam indelevelmente ligadas, como o próprio reconheceria, algumas décadas mais tarde:

“Todo o homem é, espiritualmente, filho da paisagem que iluminou a sua infância. A nossa alma é moldada na terra. Nascido no Porto, tripeiro de origem, foi nas terras do Vouga que passei, posso dizer, a minha infância. De lá, espiritualmente, parti. Quando meus Pais vinham passar as férias do Natal, da Páscoa ou as férias grandes ao Fontão, a pouco mais de três quilómetros de Angeja, começava para mim a grande evasão rústica da aldeia que foi a primeira e a melhor escola do meu espírito. Se, mais tarde, a vida me separou dessas primeiras afeições, nunca na realidade, as esqueci”.


As longas temporadas no Fontão foram descritas em “Religião do Sol”, obra redigida por Augusto de Castro enquanto estudante da Universidade de Coimbra. Nela descreve com minúcia não só as paisagens do Fontão e de Angeja, a quinta, o pessoal de serviço doméstico e os vizinhos, mas também as desfolhadas, as romarias e outras festividades locais. Prova desta pormenorizada narrativa é a sua visão do Fontão:

“A minha fresca aldeia escorrega toda por um carreiro íngreme e pedregoso, num vale que defronta um montado de verdes sombrios, de pinheiros esguios como cadafalsos e folhagens sinistras como almas de corvos. As casas todas se anicham, numa grande pacificação de conforto, brancas, enviuvando há séculos do dono, metendo vento pelas frestas, mas todas elas de peitos amplos, com músculos retesados e vigorosos”.


Se, do pessoal que prestava serviço doméstico na casa, lembra “a boa Ana, limpa, fresca, nas rugas dos seus sessenta anos”, que todas as manhãs o acordava e lhe estendia “os calções de malha, a camisa de folhos e as botas abonecadas”, dos vizinhos recorda o regedor Laranjeira, “de suíças ruivas lançadas em penacho aos cantos, grandes mãos calejadas e faces de vinagre”, que, por vezes, o acompanhava pelos seus passeios, falando “das vindimas, dos milhos queimados e da fruta”.

Outra figura importante dos tempos do Fontão foi Emília, “a noiva de sorriso esquecido a um canto dos lábios”, que foi o seu primeiro amor: “mais tarde vieram os tremores escondidos do primeiro beijo atrás duma meda de palha, numa espadelada ao luar, com a timidez sobressaltada da Emilita. Ela corou muito, corou muito e fugiu”. Seguiriam caminhos diferentes.


No que respeita às festas, é a de Nossa Senhora do Carmo, tradicionalmente celebrada a 16 de Julho, que merece maior destaque. Esta encontrava-se, intimamente, ligada ao solar herdado pelo pai, pois era na capela da quinta do Fontão que estava a imagem da padroeira.

Era também aí que se celebrava, no segundo dos três dias que durava a festividade, a eucaristia:

“Logo no outro dia – domingo – manhãzinha cedo, começam a vir os padres de longe, a cavalo em éguas de cabeça esbatida, com malhas brancas nas patas, e estribos de caixa à antiga. Chegam todos e ao meio-dia em ponto, entre o compasso acentuado e grave da batuta do regente da música e a cantilena roufenha e solene da festa, dá-se começo ao palmear sagrado da missa. A capelinha é um santuário de madeira gasta, amarelecida. Nela a Padroeira está risonha, e tem uns olhos muito puros e muito suaves para minha Mãe e para a velha Ana que andaram nesse dia desde o raiar do Sol a aperaltar as jarras com florões de buxo e de camélias. Terminada a festa é o almoço dos padres lá em casa, enquanto os músicos lá fora vão entornando, numa santa jucundidade, a última alegre gota do quente sangue de Cristo".


“Religião do Sol” é, provavelmente, o título mais sugestivo de toda a sua vasta obra. De carácter autobiográfico – apesar do autor contar à época apenas 17 anos, idade talvez muito precoce para uma tão grande nostalgia –, estas prosas rústicas parecem encerrar um carácter ritualista, que marca a passagem da infância para a vida adulta, ou seja, a saída, porventura dolorosa/traumática, da casa paterna no Porto e a entrada na Academia, em Coimbra, longe dos que lhe eram mais próximos e queridos.

"Religião do Sol" reflecte a idiossincrasia lusa, patente no processo de estereotipação que opera nas descrições do pessoal doméstico e do ambiente pastoril e inocente, com que descobre o amor. Retrata também a dualidade campo/cidade, dicotomia que pode ser vista como “produto” da vida de Augusto de Castro, uma vida ora citadina, no Porto, ora campestre, no Fontão.


As longas temporadas no Fontão e em Angeja seriam, novamente, recordadas – com nostalgia e saudosismo – por Augusto de Castro, já na fase adulta, ao aceder escrever o prefácio da obra “Angeja e a Região do Baixo Vouga”, de Ricardo Nogueira Souto. Nesse evoca, uma vez mais, a importância desse período para a formação do seu espírito e carácter:

“Se toda a nossa vida é dominada pelas impressões da primeira idade, eu devo, sem dúvida, às fontes risonhas, aos calmos e ondeantes campos, às estradas luminosas, às romarias, aos vinhedos e aos pomares do Baixo Vouga, em que fui criado, esse fundo de optimismo tranquilo, de confiança jovial e de sereno amor pelo espaço e pela luz que sempre, que até hoje, dominou o meu espírito”.”

Nas primeiras páginas dessa monografia local reconhece que falar de Angeja ou do Fontão é “uma evocação dos doces, frescos e cantantes vergéis do Vouga em que meus primeiros anos decorreram”. Nessa obra relembra como, no Verão, nos dias quentes do mês de Agosto, percorria “o túnel de Angeja, a pateira de Frossos e as estradas”; observava “a ria, as areias e as águas claras do Vouga”; “bebia água das fontes”; e contemplava “os milharais ao vento, os adros floridos, os pinhais, as eiras com o milho dourado ao sol, os rebanhos nos campos”.


Não se esqueceu, de igual modo, que foi aí que saboreou, pela primeira vez, a caldeirada de peixe do rio de Aveiro, “cheirosa, fumegante, crepitando de azeite e côdeas de trigo; espessa e picante, capaz de ressuscitar o estômago de um morto”. Nem olvida o convívio com algumas das personalidades mais importantes da região, visitas frequentes de seu pai: o Padre Santos “alto e espaduado, bom como uma criança”, o “Padre Zezinho, que tinha e, felizmente, ainda hoje tem talento e graça às carradas”, o Castanheira, o Laranjeira, o Manuel Maria de Angeja, “em cuja casa, durante a festa da senhora das Neves se comiam os melhores leitões assados da região”, e os Lemos de Alquerubim.

Pormenor de não menos importância, é o facto de associar à quinta do Fontão a imagem que guarda da mãe: “quando recordo minha Mãe é, sob os caramanchões do jardim, em que duas grandes bicas de água ora soluçam, ora cantam, que a vejo passar e chamar-me, perpetuamente viva, com seus grandes olhos que pareciam sempre rezar quando me viam”.

Angeja, o Fontão e a festividade de Nossa Senhora do Carmo assumiriam uma tal relevância para Augusto de Castro que este, mais tarde, só viria a partilhar o espaço com aqueles que lhe eram mais próximos – o poeta João Lúcio, colega do curso de Direito, companheiro da toada coimbrã; e os escritores e políticos, Júlio Dantas e Carlos Malheiro Dias [autor de "Os Telles de Albergaria" sem qualquer ligação ao nosso concelho], amigos com quem compartilhava o gosto pela poesia, pelo romance, pelo teatro, mas também pelo jornalismo, pela política e pela diplomacia. Dito de outro modo: com os amigos forjados na juventude e nos primeiros anos da fase adulta, mas que se prolongariam, singularmente, para toda a vida.

Fonte: Dissertação “Arte de falar e arte de estar calado: Augusto de Castro - Jornalismo e Diplomacia” de Clara Isabel Calheiros da Silva de Melo Serrano (adaptado) com base nas obras “Religião do Sol. Prosas Rusticas” (1900) de Augusto de Castro e Prefácio” de “Angeja e a Região do Baixo Vouga” (1937) de Ricardo Nogueira Souto

Mais informações: Blog de Albergaria / Universidade do Porto / Site do Parlamento / Wikipedia 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Albergaria Vetera de Meigonfrio


Em parte da villa de S. Pedro de Osselola instituiu a rainha D. Theresa em 1117 um couto, e uma albergaria, que posteriormente se chamou Albergaria Vetera de Meigonfrio e serviu de núcleo à moderna vila de Albergaria a Velha.

Um doc. de 1271 referindo-se a uma herdade chamada das Forcadas sitúa esta «in termino Vauge in cauto de Arbergaria Vetera et in Oselloo» (Ms. n.o 636 da Bibliot. da Universidade de Coimbra, fl. 174 v.).

Quando o bispo de Coimbra, D. Egas, em 1258, fez transcrever a Carta em pública-forma, para garantia da sua conservação, declarou que assim procedia por utilidade de Albergaria-a-Velha de Meigon Frio. E era Velha, certamente para contrapor a outra Albergaria de mais recente fundação, e que devia ser a Nova.

Fonte: José Leite Vasconcellos (em "Revista Lusitana", 1914)


As características geográficas do território de Albergaria-a-Velha, proporcionaram desde tempos muito antigos importantes rotas de circulação, em sentido Norte-Sul como Nascente-Poente, com os respectivos pontos de apoio aos viajantes, circunstância que ficou consagrada, aliás, na história e na toponímia da região, nomeadamente através da Mansio Frigida registada na documentação medieval, por certo antecessora da albergaria vetera de Meigonfrio, instituída por D. Teresa no ano de 1117, na célebre Carta de Couto de Osseloa.

Mais tarde haveria de contrapor-se outra albergaria, a nova, fundada talvez pelos senhores das terras de Santa Maria poucos quilómetros a norte da primitiva, assim dando nome a outro aglomerado urbano que ainda hoje permanece com tal designação.

Fonte: António Pinho (adaptado) (em blog "Novos Arruamentos")

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Comemorações do Dia do Município


Este ano, para além dos 182 anos da fundação do Concelho, celebram-se os 900 anos da atribuição da Carta de Couto de Osselôa por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.


DIA ABERTO PARA OS ALUNOS DO 3º ANO

Cerca de 200 crianças do 3.º ano do 1.º Ciclo do Ensino Básico vão fazer uma visita guiada aos serviços da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha na segunda-feira, 13 de fevereiro (data da fundação do concelho), no âmbito das comemorações do Dia do Município.

Na visita guiada, os alunos vão percorrer diversas divisões e serviços municipais, acompanhados por funcionários da Câmara, que lhes vão explicar o funcionamento da Autarquia. Uma das paragens é no Gabinete da Presidência, onde os alunos podem conhecer os membros do Executivo e colocar questões sobre as funções específicas do Presidente e dos Vereadores. Durante a visita será feita ainda uma breve apresentação sobre a fundação de Albergaria-a-Velha no século XII e a sua evolução até aos nossos dias.

O dia aberto para os alunos do 3.º ano insere-se na estratégia de promoção da História e Património Local e da Educação para a Cidadania, procurando sensibilizar os mais novos para o funcionamento da Administração Pública e para as formas de exercer uma participação ativa. A visita à Câmara Municipal no 3º ano do 1º Ciclo antecede e complementa a visita à Assembleia da República, que as crianças farão depois no 4º ano.


SESSÃO SOLENE E ATRIBUIÇÃO DE MEDALHAS

Ainda no âmbito das comemorações do Dia do Município e dos 900 anos da fundação de Albergaria-a-Velha, a Câmara Municipal vai realizar no dia 18 de fevereiro, sábado, pelas 16h00, uma sessão solene onde serão atribuídas distinções honoríficas a individualidades, instituições e associações do Concelho.

O Município vai atribuir a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro a Rui Marques, antigo Presidente da Câmara Municipal, à Associação de Instrução e Recreio Angejense e ao Clube de Albergaria, duas colectividades centenárias do Concelho.


A Medalha de Mérito Municipal – Grau Prata será concedida à Casa do Povo de Alquerubim, que comemora 86 anos em 2017.

A Câmara Municipal vai também distinguir, com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Cobre, Margarida Ferreira Coutinho, confeiteira dos doces tradicionais Turcos, o Agrupamento n.º 838 de Escuteiros de Albergaria-a-Velha, o Grupo Columbófilo de Valmaior, o Grupo Desportivo e Cultural de Ribeira de Fráguas, a União Desportiva e Cultural de Mouquim e a União Desportiva de Valmaior.

Fonte: CMAAV

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Fausto Xavier (1909-1995), médico com alma de artista


Fausto Tavares Xavier Lopes Rodrigues nasceu em 25 de Maio de 1909 no lugar das Azenhas, em S. João de Loure e era filho do Juiz de Direito António Tavares Xavier, natural de Macinhata de Vouga, e de D. Maria Rodrigues da Costa Lopes Xavier, a conhecida D. Maria das Azenhas, que foi presidente da Junta de freguesia de S. João Loure.

Fez a instrução primária na escola de S. João de Loure, na Rua do Cabo, tendo sido aluno dos professores Matias, de Ílhavo e, depois, Joaquim Baeta, de Pinheiro. Frequentou o Liceu José Estevão de Aveiro, concluindo o curso com alta classificação.

Ingressando na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1926, aí terminou a sua licenciatura em 26 de Julho de 1932 também com alta classificação. A menor nota que obteve, durante todo o curso, foi de 15 valores a Bactereologia.


Ainda em 1932 foi exercer a sua profissão para Lisboa, pois em S. João de Loure não tinha qualquer hipótese de 'governar a sua vida' visto sua mãe lhe ter implorado que nunca levasse dinheiro pelos seus serviços a pessoas de S. João de Loure.

No exercício da sua vida profissional, com várias especialidades, nomeadamente Medicina Tropical e Hidrologia, desenvolveu a sua actividade como Interno dos Hospitais Civis de Lisboa, cirurgião do Hospital do Rego, em Lisboa, director dos Serviços de Estomatologia do Hospital Militar da Estrela, pediatra no Hospital de D. Estefânia, assistente no Hospital Sanatório da Ajuda, além de ter o seu consultório particular, que nunca abandonou. Como foi médico militar possuía a patente de capitão.

Foi concertista de guitarra de Coimbra com formação musical, multi-instrumentista, autor de repertório próprio e executante do repertório de Artur Paredes, violino na Tuna Académica da Universidade de Coimbra e Presidente desta agremiação no ano lectivo de 1931-1932.


É autor, entre outras obras, dos hinos das Bandas Musicais da sua freguesia, a de S João e a de Pinheiro, letra e música, os quais estão registados na Sociedade Portuguesa de Autores (S.P.A.). Era poeta de um lirismo de recorte bucólico.

Além de médico, poeta e músico, também foi desportista de mérito, tendo sido campeão nacional e recordista do salto à vara, entre 1931 e 1937.

Casou em 1937, em Santarém, com a Dra. Paulina Canova de Magalhães, natural de Cantanhede, licenciada em Farmácia aos 21 anos, também com alta classificação. Tem dois filhos, Nuno António e Fausto Jorge, ambos distintos médicos, o primeiro especialista em Geriatria e o segundo em Otorrinolaringologia.

Fontes: Dr. Sousa e Melo (em Jornal de Albergaria) (adaptado) / Blog "Guitarra de Coimbra" (1) (2)


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Concurso "Descobre a Tua Terra" (1990)


Este concurso nacional foi anunciado, a nível local, no Boletim Municipal nº 9 (Janeiro/Fev. 1990), nas Escolas Preparatória e Secundária, e promovido através das Juntas de Freguesia.

A participação dos jovens seria feita em duas áreas: fotografia e texto. Os jovens podiam concorrer nos concelhos onde residiam ou estudavam, através da Câmara Municipal, e os prémios consistiam numa viagem no Comboio Europeu e numa viagem no Cruzeiro Europeu Jovem.

Na área do texto os trabalhos "deveriam abordar criativamente temas sobre "história, o património,arte ou cultura de sua terra"; na área da fotografia os trabalhos, de uma forma mais livre, deveriam tratar, naturalmente, de temas da sua terra.


Os concorrentes no concelho de Albergaria-a-Velha foram sete, no conjunto das duas modalidades, dividindo-se da seguinte maneira: João Carlos Nunes Lourenço, Goreti Maria Marques Sarrico, Ana Margarida dos Santos Branco e Delfim dos Santos Bismarck Álvares Ferreira, na área de texto; Betsy Nunes Acunha, Odílio Manuel de Seixas Santos e Ana Margarida dos Santos, na área de fotografia.

O Júri decidiu assim: como vencedor na área de texto Delfim Bismarck, com o trabalho intitulado "A Ermida de Nossa Senhora do Socorro no Bico do Monte"; como vencedora na área de fotografia Betsy Nunes Acunha, com o trabalho intitulado "Torreão".

Fonte: Boletim Municipal de Albergaria-a-Velha nº 12 (Dezembro de 1990) (adaptado) (em Blog "Novos Arruamentos")

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Alba - Uma marca portuguesa no mundo" de Delfim Bismarck Ferreira e Pedro Martins Pereira


"Procurámos com este estudo trazer a público uma panorâmica geral da vida e obra do Comendador Augusto Martins Pereira e de seus filhos, bem como da indústria daquela que foi uma das principais marcas industriais portuguesas do século XX e início do XXI”, escrevem os autores na introdução.

A marca Alba, registada em 1929, teve ao longo de várias décadas uma grande difusão, quer em Portugal, quer nos países que constituíam o designado Império Ultramarino Português.

O seu fundador, Augusto Martins Pereira, lançou as bases daquela que foi talvez a principal marca portuguesa de utensílios domésticos, mobiliário urbano e acessórios fundidos para águas e saneamento do século passado.

A importância da marca Alba não se ficou somente pelos produtos fabricados. As instalações fabris foram uma verdadeira escola técnico-profissional, formando técnicos especializados em diversas áreas que, na altura, faltavam no mercado de trabalho.

A família Martins Pereira assumiu também um papel importante no desenvolvimento social, cultural e desportivo do Concelho, com destaque para a criação e apoio do Sport Clube Alba, a construção do Parque de Recreio e Desporto Alba e do Cineteatro Alba.

Fonte: CMAAV 

sábado, 10 de dezembro de 2016

Manuel Valente dos Santos Conde (1882-1968), Padre


Natural de Salreu, nasceu a 28 de Outubro de 1882 e faleceu na freguesia da Branca a 15 de Outubro de 1968. Foi nomeado para o Serviço Sacerdotal da Igreja da Branca a 26 de Agosto de 1920 e aqui permaneceu durante quase meio século.

O Padre Conde promoveu a realização de várias obras na Paróquia, que ainda hoje são recordadas, como é o caso das obras de restauro da Igreja e Capelas da Freguesia e início da construção de nova Residência Paroquial, durante a década de 30, e Electrificação da Igreja Matriz, Iluminação da Torre e Construção do Salão Paroquial, durante as décadas de 40 e 50. E nos anos 60 adquiriram-se os painéis da Via Sacra e fez-se um novo púlpito.


Foi um dos grandes impulsionadores da Banda da Música Amigos da Branca (actualmente mais conhecida por ARMAB), sendo Vice-Presidente da Assembleia Geral durante cerca de duas décadas.

Foi um dos priores que mais marcou a freguesia da Branca e que está bem patente na memória dos branquenses, tendo sido mandado erigir um busto em sua homenagem.


Fonte: "Auranca e a Vila da Branca" de Nélia Maria Martins Almeia Oliveira (adaptado)

Imagens: Arquivo de Albergaria (Foto Gomes, 1935) / Que Cena / Blog Doutra Vida

Opinião menos abonatória dos Protestantes

Manuel Conde - por alcunha, o "Ferrugem" - nado e baptizado na vizinha freguesia de Salreu -, era o pároco da freguesia da Branca desde há muitos anos. Corria-lhe nas veias o sangue de "inquisidores" e "cruzados". Embora conhecido como homem duro, o povo seguia-o.

Sem se descuidar, pegou em Lutero e Henrique VIII, no comunismo e maçonaria e levou-os todos para o púlpito. Transformou-os em munições e dali os atirava "raivosamente" na manhã de cada Domingo. Os protestantes foram identificados com todos estes nomes e vistos como inimigos de Deus e da "Santa Madre Igreja Católica Romana".

Fonte: Irmãos.net (adaptado)

domingo, 20 de novembro de 2016

Casa da Criança de Albergaria-a-Velha (Creche de Albergaria-a-Velha)


A Casa da Criança foi construída em terreno que pertencia a duas entidades: uma parte era pertença do Professor João Gomes, do Porto, que o doou à J.P.B.L. (Junta da Província da Beira Litoral), em 1953, e a outra da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, que teve o mesmo procedimento. Este foi o ano durante o qual a mesma entrou em funcionamento, tendo a sua inauguração oficial acontecido em Maio.

O financiamento foi comparticipado pelo já habitual subsídio do Fundo do Desemprego e para a sua construção contribuiu decisivamente, para além de Bissaya Barreto, a acção do Comendador Augusto Martins Pereira, filantropo e mentor da conhecida Fábrica Alba que também tomou “a seu cargo o pagamento das despesas a efectuar com as diversas reparações do edifício”, no ano de 1957.


A análise de fotografias tiradas no dia da inauguração permite perceber que o edifício não seguia pelo menos fielmente, a proposta funcional e formal de Luís Benavente. Ainda assim, é de relevar a notória (e habitual) intenção de pelo menos introduzir o azulejo enquanto elemento primordial em termos decorativos e simbólicos (nos pilares e em vários painéis), para além do seu uso enquanto material principal de revestimento.

É também absolutamente perceptível a vontade de equipar diversos espaços, nomeadamente o gabinete médico, o refeitório e o vestiário, com mobiliário de desenho moderno/hospitalar, com linhas extremamente depuradas e privilegiando a estrutura metálica tubular. Naquele tempo, estes conceitos (moderno e hospitalar) tornavam-se, sob alguns aspectos, praticamente sinónimos, e o mobiliário era, sem dúvida, um deles.


Apesar de, por exemplo, a expressão formal do volume edificado e um certo excesso decorativo no seu interior, revelarem uma concepção arquitectónica sem especiais referências à Arquitectura Moderna, a escolha e desenho dos móveis continha em si um desejo de apetrechar modernamente o edifício, tirando daí também dividendos ao nível do estatuto de um estabelecimento que certamente queria transparecer um carácter higiénico, sanitário, limpo, novo, contemporâneo, ou seja, moderno. 

Rede de casas da criança na Província da Beira Litoral


Quando, em 1937, o Estado Novo extinguiu a educação pré-escolar pública, Bissaya Barreto concebeu e planeou uma rede de casas da criança na Província da Beira Litoral. De um total de 18 Casas da Criança, três foram criadas nos anos de 1930 (em Estarreja, Vila Nova de Ourém e em Santa Clara, em Coimbra); cinco nos anos de 1940 (Loreto e Olivais, em Coimbra, Castanheira de Pera, Figueira da Foz e Luso) e dez na década de 1950 (Alvaiázere, Mealhada, Águeda, Pombal, Albergaria-a-Velha, Condeixa-a-Nova, Coja, Pedrógão Grande e Mira).

As Casas da Criança e/ou Parques Infantis, como vulgarmente eram conhecidos, acolhiam crianças até aos sete anos de idade, filhos de trabalhadores e tinham “orientação de educadoras devidamente preparadas que lhes dão as primeiras noções que servem de pedestal à sua formação, para, na vida prática, prestarem provas da sua preparação, para os diferentes cargos a desempenhar”.


Sete Casas da Criança funcionavam em edifício próprio, construído para o efeito ou adaptado. No que respeita às infraestruturas, todas tinham água canalizada, esgoto ou fossa, eletricidade e aquecimento. Apenas a de Alvaiázere não tinha aquecimento. O projeto de arquitetura apresentava o mesmo padrão, os materiais utilizados e a decoração tipo obedecia a uma mesma linha de construção.

Estas instituições incluíam um átrio, sala de espera para doentes a aguardar consulta e um consultório, um salão para as aulas das crianças, creche com berços para os pequenitos, um vestíbulo, instalações sanitárias, cozinha, sala de jantar, dois recreios e jardim. Este tipo de equipamento foi o mais numeroso e descentralizado.


Foram formadas enfermeiras puericultoras visitadoras de infância e assistentes sociais, algumas das quais vieram a assumir funções de regente e de assistente social nas Casas da Criança, Colónias, Dispensários e Hospitais e Instituto Maternal, substituindo o pessoal não qualificado, até então em funções em alguns destes serviços (1).

(1) Casa da Criança de Albergaria a Velha (1953-1954): cursos de Enfermeira Puericultora e Visitadora de Infância (EPVI) Maria Isabel dos Santos Figueiredo e Maria Margarida Coreia Tavares.

Fontes: “Arquitectura hospitalar e assistencial promovida por Bissaya Barreto” de Ricardo Jerónimo Pedroso de Azevedo e Silva / “Bissaya Barreto e a política assistencial da Junta da Província da Beira Litoral” de Alcina Martins e Maria Rosa Tomé

Colaboração: Fotos digitalizadas por Eng. Duarte Machado

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Apresentação da edição nº 3 da revista “Albergue” (05-11-2016)


O terceiro número da revista “Albergue – História e Património do Concelho de Albergaria-a-Velha”,  que promove a investigação, preservação, valorização e divulgação do património concelhio, conta com 16 artigos de diversos investigadores locais e nacionais, bem como a contribuição de um autor brasileiro.

Os artigos publicados abordam variados temas, como a arte sacra, o cinema, a emigração, a política e a religião, abarcando não só o património edificado, mas também o natural, o imaterial e o geológico.


“Manuel Guimarães – O Cinema ou a Vida”, de Leonor Areal,  “Património Natural do Município de Albergaria-a-Velha: Rios de descoberta – A biodiversidade do rio Fílveda”, dos investigadores da Universidade de Aveiro, Milene Matos, Inês Silva e Nuno Lopes-Pinto, e “As Mamoas do Taco (Albergaria-a-Velha) – Recuperação e Valorização Patrimonial”, de Pedro Sobral de Carvalho e Vera Caetano são alguns dos artigos que podem ser encontrados neste mais recente número da revista Albergue.

Pela primeira surge um artigo de um investigador estrangeiro, o brasileiro Wanderlei de Oliveira Menezes, com um estudo biográfico intitulado “A trajectória de José Álvares Ferreira (1737-1810) – Um albergariense e a carreira da magistratura no Reino e Ultramar Português”.

A revista apresenta uma rubrica nova, “Notas soltas”, dedicada a referências sobre Albergaria e a sua região, no domínio da Cartografia, bem como uma referência final, bibliográfica, sobre os artigos publicados nos números anteriores.


Capa

A imagem de capa é um retrato a óleo de Bernardino Máximo de Albuquerque existente no Salão Nobre dos Paços do Município, sendo uma forma de homenagear aquele que foi provavelmente o principal autarca Albergariense de todos os tempos, e que marcou a viragem do século XIX para o século XX, bem como a transição da Monarquia para a República, e que dá o nome à principal Avenida do Concelho, que liga os Paços do Concelho ao antigo Hospital.

O autarca, natural de Silva Escura, concelho de Sever do Vouga, é citado em dois artigos, um sobre a Casa do Outeiro ou da Rua de Cima em Albergaria-a-Velha, que era de sua propriedade, e outro sobre o período de anexação do Concelho de Sever do Vouga por Albergaria-a-Velha (1895-1898), em que ele era o Presidente da Câmara.


Três primeiros números da Revista Albergue

Delfim Bismarck esclareceu que no conjunto dos três números da revista Albergue, são apresentados artigos de 33 autores, num total de 38 artigos e 899 páginas publicadas, com 625 imagens distintas do Concelho.


Futuras edições

Estão em preparação duas obras sobre a participação dos Albergarienses na I Guerra Mundial (1914-1918) e na “Guerra do Ultramar” (1961-1974).

Fontes: CMAAV / Ribeirinhas  TV (Video) / Facebook

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Natália de Jesus preserva a tradição das esteiras de bunho de Frossos


Em meados do século XX, as esteiras de bunho eram o “ganha-pão” de muitos habitantes de Frossos.

Natália de Jesus tem 73 anos e trabalha o bunho desde os 13 anos, tendo aprendido a fazer esteiras de bunho com a sua mãe. Em 1975, quando se casou, deixou a actividade de esteireira, para se dedicar à agricultura.

Em 2004 decidiu voltar a fazer as esteiras em bunho. Natália de Jesus possui um terreno na zona lagunar da Pateira de Frossos, onde recolhe o bunho, que depois é selecionado e seco.


Esta actividade não é muito lucrativa, pois ocupa muito tempo, desde cortar, limpar, estender, trazer para o palheiro e depois dobrá-lo, pelo que o seu objectivo é essencialmente mostrar como se fazia antigamente.

As esteiras são feitas em casa num tear de pedras, ou “Burro” (por ter 4 pernas), cuja particularidade é ter pedras nas pontas dos fios que entrelaçam o bunho.

A artesã é presença habitual em feiras, exposições e certames e gosta de trabalhar ao vivo para difundir o saber, a tradição e a identidade cultural da terra onde nasceu.

 

Bunho

O bunho (Schoenoplectus lacustris) é uma erva nativa da Europa, comum em áreas húmidas e alagadiças. O bunho era predominante em zonas ribeirinhas de Portugal, podendo medir até 3 metros de altura. A apanha era feita à mão, com o auxílio de uma gadanha, para preservar as suas potencialidades.

Em relação a outras regiões do distrito de Aveiro, Albergaria-a-Velha tinha a vantagem dos seus terrenos terem grande abundância desta erva.


Finalidades

Antigamente os colchões eram de palha e as camas de ferro. A esteira era colocada por baixo do colchão para não o deixar estragar.

Mas as esteiras tinham outras finalidades. Havia esteiras maiores que serviam para tapar o milho ou o feijão que se encontravam nas eiras; esteiras para colocar no chão da cozinha; e esteiras mais vulgares para quando morria alguém, pois era usual as pessoas saírem da cama e irem para cima de uma esteira.

No concelho de Albergaria-a-Velha não era tão habitual a venda para servir de acondicionamento de produtos. Natália de Jesus apenas vendeu para as fábricas ALBA, durante alguns anos, para embalar prensas e bancos. Na região de Veiros (Murtosa) é que essa prática era mais comum.

Actualmente, as esteiras são utilizadas como decoração, sendo vendidas no mercado tradicional.


Certificação

A produção tradicional de esteiras de bunho foi recentemente certificada pelo IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional.

O processo de certificação junto do IEFP teve início após a participação de Natália de Jesus na oficina “Apoios ao Artesanato”, que decorreu em maio, na Incubadora de Empresas de Albergaria-a-Velha. A equipa do CLDS Albergaria Integra'T, que organizou a acção, preparou toda a documentação inerente ao processo e, em Setembro, a artesã de Frossos foi a primeira participante da oficina a ver a sua actividade certificada.

Fontes: Localvisão / CMAAV

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Arte Cristã em Albergaria-a-Velha - Site criado pelos professores e alunos de EMRC (AEAAV) 2015-2016


Os alunos de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) da Escola Secundária de Albergaria-a-Velha, desenvolveram um site com arte cristã do concelho.

A iniciativa surgiu como trabalho de projecto no âmbito do estudo da Unidade Lectiva "A Arte Cristã" proposta pelo programa da disciplina neste ciclo de ensino.

Em declarações ao EDUCRIS o professor de EMRC Luís Manuel, congratulou-se com "o empenho dos alunos na descoberta da arte cristã presente no concelho de Albergaria-a-Velha" e pela oportunidade dos discentes [alunos] "desenvolverem competências informáticas e de estudo em autonomia".

A proposta consta do próprio manual da disciplina e permite um contacto concreto "com o património cultural, religioso e artístico" das localidades onde os docentes aplicam esta Unidade lectiva.

Fonte: Educris

Coordenação dos professores Isabel Santos e Luís Silva (lista de autores)

Exemplos (infelizmente ainda não disponibilizaram imagens de Frossos):

Albergaria-a-Velha


Alquerubim


Angeja


Branca


Ribeira de Fráguas


São João de Loure


Valmaior
 

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Manuel Valente dos Santos: um inventor branquense

A mostrar uma das suas invenções à Rainha Fabíola da Bélgica.
Primeiro de 7 filhos, Manuel Valente dos Santos nasceu a 21 de abril de 1920. (...) Filho de Francisco Santos e Benedita de Jesus, Manuel Valente dos Santos frequentou a escola da sua terra, a Branca, até 1933. Trabalhou na agricultura e nos transportes até 1942, 1943, altura em que foi fazer o serviço militar, em Lisboa.

Cumpriu o serviço militar nos Sapadores de Caminhos de Ferro. Posteriormente, Manuel Valente dos Santos arranjou trabalho no Instituto Pasteur em Lisboa graças á intervenção de um oficial, seu superior, onde foi colocado na secção de material cirúrgico e onde terá desenvolvido a sua vocação.

Numa altura em que a II Guerra Mundial estava no auge, escasseavam os instrumentos cirúrgicos, uma vez que os poucos que os produziam não chegavam para as necessidades. Os cirurgiões viam-se a braços com uma carência assustadora de tais materiais e Manuel Valente dos Santos propôs-se a produzi-los. Em oito meses familiarizou-se e apaixonou-se pelo seu novo trabalho.


Através da observação nas intervenções cirúrgicas em que esteve presente - nomeadamente com Décio Ferreira, grande especialista de cirurgia cardiológica - começou a aperfeiçoar utensílios já utilizados para lhes aumentar a eficiência. Além disso, criava, ele próprio, instrumentos, revelando uma intuição invulgar e que lhe mereceu, ao longo de toda a vida, rasgados elogios.

Posteriormente, Manuel Valente dos Santos foi convidado para ir trabalhar para a ADICO, em Avanca. Já após o seu casamento, em 1944 com Maria Glória Pereira e depois de ter três filhos, adquiriu uma fábrica, no Porto, em 1954 que, em 1956 foi transferida para Soutelo, a Fábrica MAVAS (que representava, precisamente, as iniciais do nome Manuel Valente Santos).

Foi, igualmente, em 1956 que Manuel Valente dos Santos participou no Congresso Mundial de Cirurgia Cardiotorácica, em Barcelona. Um dos primeiros hospitais a recorrer aos instrumentos inventados por Manuel Valente dos Santos foi o Hospital de Águeda dirigido pelo famoso cirurgião António Breda.


Em 1959, o inventor de Soutelo participou na Exposição Industrial – Comemoração do Milenário de Aveiro e do Bicentenário da sua Elevação a Cidade onde recebeu o Diploma de Medalha.

Ainda em 1959 participou na Exposição Nacional de Évora onde foi, também, distinguido pelos inventos apresentados.

Foi em 1960 que Manuel Valente dos Santos participou, pela primeira vez, no já IX Salão Internacional de Inventores, em Bruxelas com onze inventos. Aqui, recebeu três Medalhas de Ouro, das quais, duas com felicitações do júri internacional, cinco Medalhas de Prata Dourada, duas Medalhas de Prata e uma de Bronze.


Para além destes prémios, Manuel Valente dos Santos recebeu, igualmente, uma Medalha, prémio atribuído ao melhor expositor de cada país. O dispositivo inventado por Manuel Valente dos Santos, um misturador para transfusão que arrecadou uma das medalhas douradas começou, desde logo, a ser utilizado nos grandes hospitais de Bruxelas.

De Bruxelas, Manuel Valente dos Santos levou, ainda, um convite para expor os seus trabalhos em Paris em Maio do mesmo ano e onde obteve mais uma Medalha de Ouro por todos os inventos apresentados.

Além de começar a ver as suas invenções a serem utilizadas por todo o mundo nas mãos de médicos e cirurgiões, estas foram, também, nomeadas não só na imprensa da altura como em livros, nomeadamente, no livro sobre cirurgia escrito por Charles Bailey.

Revista UPorto / Alumni
A MAVAS começou, assim, a receber muitas encomendas de hospitais estrangeiros, europeus e americanos. Como vantagem, Manuel Valente dos Santos tinha o facto de os seus “ferros” estarem patenteados o que lhe permitia o fornecimento exclusivo daqueles materiais. (...)

Contudo, de salientar que Manuel Valente dos Santos sempre teve um talento especial para tornar a vida mais fácil com o recurso a alguns instrumentos. Já muito jovem teria criado uma caneta-pistola, isto é, transformou uma caneta de tinta permanente, munida de alavanca lateral numa pistola que resultou de tal forma que poderia ter ferido, inadvertidamente, o irmão que havia chamado para o ajudar. Mas não se ficou por aqui!

Manuel Valente dos Santos construiu um aparelho para servir à mesa sem o auxílio de uma empregada para o efeito. É um aparelho que permite transportar e posicionar as travessas com os alimentos em frente às pessoas que estão sentadas à dita mesa e que pode ser comandado à distância tendo este mecanismo sido apresentado no X Salão Internacional de Inventores, em Bruxelas.


Assim, em março de 1961, Manuel Valente dos Santos participou no X Salão Internacional de Inventores, em Bruxelas com 14 inventos. Desta feita, o inventor Manuel recebeu Diploma de Medalha de Ouro com felicitações do júri, mais oito Medalhas de Ouro e de Prata Dourada, três de Prata e três de Bronze.

Posteriormente a esta participação, Manuel Valente dos Santos recebeu, em sua casa, Paul Quintim, Presidente do Salão Internacional de Inventores, curioso de conhecer o local onde os inventos ganhavam corpo. Ainda em 1961, Manuel Valente dos Santos participou no I Salão de Inventores, em Lisboa onde recebeu o 1º prémio com Diploma e Medalha de ouro.

Foi, também, em 1961 que, juntamente com o seu filho mais velho, Carlos Santos construiu um barco com a particularidade de ter sido o primeiro barco feito de fibra de vidro em Portugal. Contudo acabou por desistir da ideia de levar este trabalho em frente, por não lhe cederem alvará.


Em 1962, Manuel Valente dos Santos participou no XII Salão Internacional de Inventores, em Bruxelas onde recebeu quinze medalhas, seis das quais de ouro, quatro delas com felicitações do júri. Nesse ano, o inventor da Branca privou com várias figuras importantes da época que mostraram interesse pelo seu trabalho, nomeadamente, a Rainha Fabiola, da Bélgica.

Em 1967 veio a conhecimento público que Manuel Valente dos Santos estaria a trabalhar numa invenção para extração de tumores cerebrais que teve, posteriormente grande sucesso a nível mundial. Esta descoberta foi, ainda, alvo de uma tese realizada pelo neurocirurgião, Celso Cruz.

Apesar dos louros e felicitações que foi recebendo, a falta de apoios, em Portugal, acabou por travar as viagens de Manuel Valente dos Santos a estas exposições uma vez que se tornavam viagens bastante dispendiosas e que ficavam a cargo, na sua totalidade, do inventor do Soutelo. Contudo, Manuel Valente dos Santos não deixou de ser abordado por cirurgiões, hospitais e outras instituições como a Cruz Vermelha belga interessados nos seus trabalhos e a que algumas vezes não conseguia dar resposta pois a produção que detinha não o permitia.

Site Portuguese American Historical & Research Foundation

Site do Museu Maximiano de Lemos
Em 1968, Manuel Valente dos Santos rumou aos EUA para participar no Congresso de Urologia e Cirurgia, em Miami. Aconselhado por médicos e amigos resolveu ficar. A primeira barreira com que se deparou foi a língua, que não conhecia ficando dependente de tradutores que, muitas vezes, deixavam que se perdesse o verdadeiro sentido do que era dito. Mas não foi só a língua. A economia, o mundo empresarial, o dólar funcionavam de forma diferente daquilo que Manuel Valente dos Santos, demasiado bom e honesto, conhecia.

Durante a sua estadia nunca deixou de assistir a muitas operações ao coração. Passou por fábricas de aparelhagem cirúrgica como a de Castle Selar Weck, pelos hospitais de Nova Iorque, Boston, Miami, Florida, Rochester, entre tantos outros.

Manuel Valente dos Santos inventou um novo aparelho cirúrgico para operações ao cancro do recto nos EUA. Em 1974, a fábrica em Portugal, a MAVAS foi fechada. Após ter trabalhado para uma grande indústria de instrumentos hospitalares, uma fábrica em Long Island, Nova Iorque, entre 1975 e 1978, Manuel Valente dos Santos trabalhou para uma subsidiária da mesma na Carolina do Norte para onde foi treinar o pessoal.



Posteriormente, a internacional Stryker, do estado de Michigan tornou-se sua cliente quando Manuel Valente dos Santos teve a sua própria fábrica em Newark, Nova Jérsia, Estados Unidos onde trabalhou sozinho durante muito tempo e depois com um primo que levou para lá e a quem ensinou a arte.

É extremamente vasta a lista de instrumentos inventados por Manuel Valente dos Santos, desde uma mesa para a colheita de sangue de transfusões, instrumento para suturação de vasos, chave de parafusos para cirurgia óssea, pinças das mais complicadas para utilização nas mais diversas operações cirúrgicas, até uma cadeira para uma criança sem braços que foi criada e adaptada para que a criança pudesse desenhar com os pés.

Em 1988, Manuel Valente dos Santos voltou a participar no Salão Mundial de Inventores, de Bruxelas onde recebeu vinte e uma Medalhas de Ouro correspondentes a vinte inventos destinados a cirurgia de alto risco sendo que o Suction basket forceps, instrumento usado para operações ao joelho, ao menisco recebeu duas medalhas.

Manuel Valente dos Santos recebeu, igualmente, a taça do Burgomestre de Bruxelas, a Medalha de Honra da Comuna de Saint-Josse-Ten-Noode que representa a homenagem da população de Bruxelas ao inventor estrangeiro presente com maior prestígio e recebeu ainda as insígnias de inventor de mérito atribuída pelos serviços à causa de progresso e apoio às invenções.


Em 1989, passados 21 anos, o inventor do Soutelo voltou ao seu país. Manuel Valente dos Santos sentiu-se, muitas vezes, frustrado porque não existiam produtores, não havia quem produzisse no estrangeiro. E, consequentemente, o material que Manuel Valente dos Santos fazia acabou, deixou de se produzir. Foram, no entanto, reproduzidas algumas réplicas. Viveu a sua reforma a trabalhar, despreocupado numa oficina que entretanto construiu, em Aveiro.

Medalhas de ouro, diplomas e insígnias que Manuel Valente dos Santos recebeu no último Salão Internacional de Inventores em 1988. Definido como uma pessoa exigente que dava bastante importância às pequenas grandes coisas, uma pessoa que valorizava o respeito e estava sempre disponível a ajudar quem precisasse, Manuel Valente dos Santos foi sempre caraterizado como uma pessoa modesta e humilde, com um enorme espírito criativo que lhe permitiu desenhar e construir instrumentos com tanto de quantidade quanto de perfeição.

Manuel Valente dos Santos entregou a sua vida à invenção de material cirúrgico que possibilitou a revolução do equipamento utilizado pela medicina.

Fonte: Correio de Albergaria (adaptado)


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